sábado, 15 de setembro de 2012
Pelo amor de Deus, não me apresentem mais ninguém.
segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Holambra
Depois de um stress daqueles por causa de uma amiga que nos deu o cano, Yara e eu decidimos ir com o carro dela para Holambra. Era para ter saído às 07 da manhã. Acabamos saindo às 10:40, mas foi um dia muito especial e divertido. Yara trouxe o GPS, aconselhada pela filha, que já sabe que a mãe é atrapalhada, e previu que juntando com outra, seriam duas coroas atrapalhadas, o que seria bem pior. A mocinha do GPS acertou tudo direitinho e chegamos a Holambra sãs e salvas.
O dia estava lindo, ensolarado, os pássaros cantando, o silêncio da cidadezinha de 12.000 habitantes. Queríamos fazer um tour e logo que estacionamos perguntamos a um grupo de pessoas que chegavam a um restaurante, como poderíamos fazer, os quais imediatamente nos indicaram alguém e ainda se despediram da gente com beijinhos no rosto. Todo mundo muito amigável.
Ainda descobrimos que uma casa de 300 m, custa apenas R$250.000,00. Bom lugar para passar a velhice. Os holandeses são espertos. Fizeram um condomínio onde cada idoso ou casal de idosos, tem sua casa, mas o condomínio inclui cuidados médicos necessários. Tocam um sinal na casa matriz e um médico está ali, à disposição, para atender os que precisam.
Almoçamos super bem, com direito a uma torta de limão inesquecível e saímos para o tour. Vimos uma fazenda de gérberas, lindas, de todas as cores. Vimos o moinho e o lago que foi criado de um córrego, pelos holandeses, os quais depois dividiram o lago, parte para os holandeses e parte para os brasileiros que moram ali. Durante o passeio brincamos muito com dois casais de jovens que estavam na nosso tour. Eles riram muito com nossas bobagens. Queríamos saber se haviam holandeses disponíveis para duas coroas. Fizemos todas as perguntas para a guia, nada com relação ao passeio, tudo sobre os homens de Holambra. Duas coroas taradas fazendo planos para comprar uma casa para três idosas, sim, três porque uma, que é amiga da Yara, está esperando o marido morrer para se juntar a nós.
Depois mais um café e outro doce, por que não?
Uma espiada na loja de lembranças e decidimos voltar para Sampa. Só que desta vez, sem GPS. Resultado é que nos perdemos. Fomos parar num shopping em Campinas. Lá fomos cercadas por três taxistas. Um perebento, feio que doía, outro um tipo meio índio e um mulatinho da hora, como disse minha amiga, ajeitadinho, dava para encarar. E ele bem que encarou a gente, ficava ora olhando para mim, ora para Yara, com olhar de safado. Pois é, depois de uma explicação do perebento, impossível de ser seguida, com sotaque nordestino e com tanto: “ Entra à direita, depois à esquerda, depois desce a rua, passa por baixo da ponte”, o tipo índio, graças a Deus, sabia mexer no GPS e colocou nossa salvadora, aquela voz linda, para nos trazer de volta para São Paulo. Aproveitei para perguntar se não teria uma voz gostosa de homem, que falasse suavemente nos nossos ouvidos, mas que fosse mais firme, para que não ficássemos na dúvida, porque a tal moça tinha um defeito, de vez em quando ela dizia: “Vire ligeiramente à direita” e aí Yara perdia o rebolado e não sabia se o tal “ligeiramente” era para virar ou não, mas já estava tudo conectado e decidimos sair com a moça mesmo.
No caminho ainda rimos muito porque tanto Yara quanto eu, adoramos o mulatinho dos seus 45 anos, pois ele estava no ponto, pena que não era para nosso bico.
E a volta foi ótima, a moça do GPS nos trouxe direitinho até a porta de casa e ainda disse: “Vocês chegaram ao seu destino”.
Exames médicos e confusões
Outro dia minha amiga estava muito preocupada porque teria que fazer urgentemente uma cirurgia, pois estava cheia de pedras na vesícula. Ela havia feito uma ultrassonografia há dois anos, que haviam acusado o problema. Lá foi ela então passar por consulta novamente, com o mesmo médico da família que havia solicitado o primeiro exame, para verificar como estava a situação. O médico deu a maior bronca pelo desleixo em deixar passar tanto tempo e solicitou novo exame.
Minha amiga fez o exame, durante o qual, o técnico, não conseguindo localizar pedra nenhuma, mandava minha amiga virar de cabeça para baixo, se sacudir, virar de um lado, de outro, e nada de pedras. Sumiram todas. Milagre! Aconteceu um verdadeiro milagre!
De volta ao consultório, o médico de família não se conformava. “Mas como, as pedras estavam aqui, isto é impossível”. Pegou a radiografia, examinou minuciosamente. Parecia impossível que os exames fossem da mesma pessoa. De repente, uma luz brilhou nos seus olhos e na sua mente de especialista famoso. Correu para o arquivo, pegou a pasta da mãe da minha amiga, que também se consulta com ele. Pois é, as pastas estavam trocadas. As pedras eram da mãe...
Por falar em mãe, mãe é mãe, como diz o ditado popular, faz qualquer sacrifício. Há uns 30 anos mais ou menos, eu precisava muito de um emprego e não podia esperar outra oportunidade. O emprego era para substituir uma funcionária grávida, então eles tinham pressa e me deram um dia para fazer todos os exames de sangue, de urina e de fezes. Acho que eu estava tão estressada que não consegui fazer o de fezes. Corri para casa da minha mãe e pedi para que meu irmão, que era bom nisto, fizesse o exame por mim, mas ele não conseguiu me ajudar. Aí apelei para o coração de mãe, modo de dizer. Implorei para que ela fizesse o tal cocô, para que eu levasse no dia seguinte, e assim conseguisse o tal emprego. Ela fez o maior esforço e me trouxe umas bolinhas, que pareciam de cabritinho. Mas foi melhor do que nada. Consegui o trabalho, fiquei aliviada.
Ainda bem que eu ainda não tinha o Chiquinho, meu Yorkshire porque se não ia sobrar para ele e de repente iam me vacinar contra raiva antes de me contratarem.
sábado, 18 de agosto de 2012
Hóspedes e Inquilinos
Se existe um traço que marca minha personalidade é a coragem. Como disse minha filha uma vez, meu mundo é um mundo à parte, um mundo cuja redoma inexistente permite que muitos personagens diferentes penetrem e invadam minha vida. Desde que meu filho comprou seu canto aconchegante e saiu de casa, alugo a suíte onde ele dormia, o quarto que ele usava e era seu mundo. Foi uma forma de ter alguém por perto e fazer um dinheirinho extra. Já passaram várias pessoas, e todas muito especiais e diferentes, com qualidades e defeitos, com coisas boas e ruins.
Conviver é uma arte, das mais difíceis eu sei, mas tenho aprendido muito, e quem sabe, ensinado muito também. Começou com uma austríaca, um amor de menina, meiga e muito simpática, um doce de coco. Bebia bastante, porém, e quando chegava ao prédio onde moro, nem sabia para onde ir, entrava cambaleando e com a latinha de cerveja na mão, mas era uma artista. Pintou o quarto com sereias, estrelas e tudo que coubesse na imaginação dela.
Depois veio a russa. Um mulherão no sentido literal da palavra. Tinha os cabelos negros até a cintura. E adorava a cor verde. Tudo era verde. Os sapatos, a maquiagem, o vestido, e pasmem, as unhas dos pés e das mãos. Ela era muito estranha. Adorava se sentar na sala e assistir o jornal da Band, se inteirar das notícias do mundo. Torcemos juntas para OBAMA. A extravagância dela era do mesmo porte do seu ego. Uma vez, pegou uma colgadura, de dentista, e no lugar do RaioX colocou seis fotos de desconhecidos, fotos que comprou na feirinha da Benedito Calixto, e fez um colar. Saiu na rua, toda de verde, para variar, sombra verde, alta, com aqueles longos cabelos negros e aquela cara esquisita. Quando voltou para casa, para lá de entusiasmada, com olhar de louca e rosto afogueado, me disse: “Estou lançando moda, todo mundo me olhava na rua, adoraram, vou fazer umas peças destas para vender na feirinha do MASP.” E não é que na semana seguinte lá estava ela, embaixo do vão do Masp, tentando vender suas obras de arte? Aprontou muito a tal russa, mas cada dia vinha com uma novidade. A comida que fazia era uma gororoba monstruosa marrom, que tinha um cheiro horrível, a criação de peças das mais inusitadas, as “obras de arte” que ela colocava no seu blog, a filosofia de vida e no final, gente que é gente acaba se envolvendo, na verdade ela era uma solitária e com uma dolorosa história de vida. Estamos todos aqui para aprender. Depois veio minha mineirinha que ficou um ano e meio por aqui. Muito na dela, não se envolvia na casa. Ficava sempre no quarto, seu mundo particular. Mas participou de todas as festas e partilhou dramas da minha família. Foi muito discreta, atenciosa e solidária quando precisei dela. Foi uma boa convivência e se ficasse mais um ano e meio teria sido um prazer.
Aí veio um rapaz que a princípio pensei que fosse muito tímido e educado. Mas era muito jovem e melindroso. Se eu comentasse sobre algo que não estava bem, ele respondia mal. Nunca lavou uma xícara minha sequer. Eu lavava as dele às vezes, afinal é natural ter estas delicadezas quando se mora junto. A situação foi piorando, mas não pensei que chegasse a ser tão ruim. Enquanto eu viajei ele trouxe a família para ficar no meu quarto, na minha cama, nos meus lençóis e trouxe companhia para o quarto dele algumas vezes. Tudo sem pedir minha autorização e sabendo que isto não seria permitido, afinal todos meus hóspedes assinam um contratinho que é lido antes de morarem aqui. Quando cheguei de viagem encontrei tudo revirado e quando reclamei ele alegou: “Agora você voltou e pode fazer as coisas do seu jeito!” de certa forma me afrontando.
Agora tenho um hóspede que é uma gracinha. Sabem aquele menino bom, educado, respeitador e atencioso? Fiquei emocionada quando vi como ele se preparou e preparou quarto e comida para receber a namorada. E este sim, pode trazer a namorada para ficar aqui uns dias, porque perguntou primeiro, porque é uma namorada e não uma “ficante” ou “peguete” que se encontra num barzinho, porque foi claro, honesto, sincero. A namorada chegou sorridente, trazendo de presente uma toalha de crochê feita para mim, pela mãe dela, quanta gentileza. Este rapaz não fica separando minha louça da dele. Se ele está lavando a louça, lava também a minha e a recíproca é verdadeira. Este eu posso considerar um filho polonês. Rapaz de princípios morais e religiosos. Sabem aquele genro que toda sogra pediu a Deus? E que romântico... Foi buscar a namorada no aeroporto de terno e com flores, é, isto mesmo, é daqueles que ainda mandam flores.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Caminhadas e Aprendizado
Caminhadas e Aprendizado
Hoje sai para minha caminhada diária em direção ao Citi onde dou aulas de Inglês. Sempre agradeço a Deus por estas caminhadas porque eu vejo tantas coisas, tanta vida, tanto para pensar e aprender e muito mais ainda para agradecer. Às sete da manhã estava friozinho. Olhei para as nuvens no céu, elas estavam loucas, devido ao vento, movendo-se rápido demais, nunca tinha visto o céu assim, tão cheio de nuvens, mas entre elas, de repente, aparecia aquele céu azul, um azul lindo. E coincidentemente enquanto eu observava o céu uma mulher veio andando em minha direção, com um casaco de nylon exatamente da mesma cor. Bonito dia. Passo por varredores de rua e lhes digo: “Bom dia!” E eles respondem ao cumprimento com um baita sorriso nos lábios e o sorriso destes simples trabalhadores aquece meu coração e minha alma. Como eu gosto de gente. O homem com a ferida na perna, aquele que vejo frequentemente, há doze anos na Paulista, do mesmo jeito, só um pouco mais velho, continua na cadeira de rodas. E me pergunto se realmente o inferno não é aqui mesmo. Segundo os espíritas nosso planeta não será mais de expiação. Será? Continuo acreditando na vida após a morte, mas acho que a Terra, dependendo da situação que vivemos, é o castigo e o inferno, a remissão dos nossos pecados. O outro velho mendigo, gordo, com unhas dos pés de 5 cm, mora na esquina da Pamplona com Paulista e lá está ele todas as manhãs, dia após dia. Outro, bem magro e encurvado, anda com uma barra de ferro na mão, praguejando e tentando bater em cada pedestre que passa por ele. Na mesa de um restaurante, colocada na calçada, ouço o casal que briga, logo de manhã, ela argumentando que “fulano” não a havia embebedado.
Continuo caminhando, ao meu lado passa uma mulher de turbante e logo a seguir uma executiva elegante. Um casal se beija apaixonadamente, a esta hora da manhã, provavelmente se despedindo da noite de amor. Parecem realmente apaixonados. Os contrastes são impressionantes. Passa um homem imensamente gordo, com as banhas todas balançando e com o passo lento e cansado. E logo depois uma mulher tão magra que eu podia jurar que só tinha ossos. São muitos os deficientes físicos que vejo em meia hora de caminhada. Será que é mesmo porque existem mais acidentes atualmente, como mencionou uma amiga minha ou será porque finalmente eles estão podendo sair do armário, antes confinados a suas casas, dependendo de algum parente ou amigo. Agora saem, trabalham, vão ao cinema, vão aos Shoppings e estão convivendo e interagindo com o mundo ao seu redor. Isto é muito bom. Hoje vi seis deles indo para seus trabalhos e um deles cortou meu coração. Um rapaz bonito, de terno, uns 35 anos, sem braços e sem pernas. Indo para o trabalho. Dois casais de gêmeos. Duas jovens adolescentes com rosto cheio de espinhas, bonitinhas, são idênticas. E dois rapazes um pouco mais velhos. Um casado e outro solteiro. Como eu sei? Eles pararam do meu lado para atravessar a rua. Os dois no mesmo gesto, com os braços na cintura, como açucareiro. Um tinha aliança de ouro nova, brilhando, outro não. O “solteiro” tinha um jeito mais descontraído, sapatos estilo mais casual, camisa arregaçada nas mangas. O outro era mais sério, todo certinho e mais tradicional. A rua é um filme de Fellini e podemos ver os tipos mais estranhos. A jovem de mini saia colorida, botinhas, cabelos longos avermelhados e longos até a cintura, linda e ao lado dela, logo a seguir, passa um rapaz baixinho, débil mental, careca, branco, quase transparente, sozinho, com as sacolas do super mercado.
Destinos, vidas, dores, frustrações, alegrias. Olho seus rostos e tento imaginar suas vidas. E assim caminhando aprendo, rezo e agradeço a vida.
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Passeios e conjecturas
Quando não estou andando pelas ruas de Roma, ao sol que arde todos os dias no verão, com o céu totalmente azul e sem nuvens, suando sim, mas alegre e descontraída, na terra de minha mãe e de minhas fadinhas, caminhando embaixo dos plátanos ao longo do Tevere, e nem tampouco andando nos undergrounds de Montreal ou ao ar livre, sob sensação térmica de menos cinqüenta graus (negativos), que frioooooo, faço meus passeios por aqui mesmo em Sampa, na Avenida Paulista, indo para cá e para lá, para dar aula, para ir aos médicos, à psicoterapeuta, na fisioterapia.
Quem disse que não é divertido? Faço caminhos diferentes e acabo me divertindo ou aprendendo muito sobre a vida. Para ir ao gastro, por exemplo, tenho que descer uma escadinha fulera, nas bocadas, atrás do Shopping Paulista, para cair na Rua Maestro Cardim. Vou a pé da Angélica até lá, tranquilamente, uns 6 km mais ou menos.
É uma escadinha muito democrática. Já passei por ela em vários horários. Na parte da manhã, vejo crianças brincando e pulando os degraus, ou brincando com suas babás ou mamães. Na hora do almoço, o ambiente é totalmente outro. Trabalhadores, operários de construções de prédios da vizinhança, estão comendo em suas marmitas e depois, abrem a camisa e deitam ali mesmo, fazendo um cochilo enquanto tomam um pouco de sol. No final da tarde a escada vira um “maconhódromo”, como se estivessem a sós, rapazes e moças, acendem e partilham seus baseadinhos, sem nem notar a presença da senhora que passa em seus passeios estapafúrdios.
Na Paulista a diversidade é maior ainda. Tem de tudo, de cover do Michael Jackson a estátuas vivas, desde demonstrações de aulas de tango, a ciganas, cheias de filhos pequenos, pedindo esmolas. E se prestarmos atenção nas conversas então, o divertimento é maior ainda, vão de brigas de namorados a assuntos de política. Bem diz minha amiga, que mora em um bairro super residencial e tranqüilo, que aqui é outro mundo.
E assim faço uma terapia “extra” por estes caminhos de ruas, ruelas, escadinhas, avenidas e pelos caminhos da minha vida.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Será que estou com depressão pós parto?
Primeira parte
Bem, há um mês resolvi comprar um cachorrinho, um yorkshire petit. Uma gracinha. Há tempo que eu vinha falando que queria outro cachorrinho, pois sentia saudades do Fidel, meu Fred Astaire, meu basset, que morreu em maio de 2009.
Tinha dúvidas se devia ou não pegar outro cachorro porque com a filha em Roma e o filho com projeto de voltar para Montreal, para terminar lá seu doutorado, eu tenho que estar sempre viajando e com um cachorro tudo fica mais difícil. Apesar de ter sido uma decisão consciente, admito que estava um pouco desgastada afinal vinha enfrentando várias coisinhas chatas nos últimos dois anos e fui impulsiva. Foi assim: num sábado estava passeando, meio chateada, ou melhor, meio triste, por uma rua pela qual nunca tinha passado e passei por um pet shop. Resolvi entrar. Vi um cachorrinho desta raça e fiquei encantada. Troquei idéia com várias pessoas dentro do Pet Shop e todos me aconselharam a pegar o bichinho, mas quando soube o preço, caro demais, desisti e continuei meu passeio. Acabei achando outro pet shop e vi outro cachorrinho da mesma raça pela metade do preço. Agora não tinha desculpas. Quando o peguei e ele fez manha, cortou meu coração e decidi levá-lo na hora.
Realmente eu estava acostumada com o Fidel, que nasceu e viveu 4 anos em Atibaia antes de vir para São Paulo. Com um quintal, um jardim, onde ele fazia as necessidades, corria, pegava passarinhos, Fidel nunca fez xixi dentro de casa. Mas o meu pequeno Chico é um mijão, não sei como cabe tanto xixi dentro dele. De hora em hora minha área está toda mijada. E aí coloco jornal, enxugo, passo pano com cândida para que ele não se acostume a fazer ali, mostro o lugar certo, tento ensinar e treinar, mas nada. Quando acabo de limpar tudo, ele vem e faz xixi de novo e depois se esconde. Então, se ele se esconde, será que é porque sabe que fez coisa errada?
Bem se este fosse todo o problema, seria fácil. Ele começou a vir com tiras compridas de farpa de madeira. Descobri que estava comendo o armário por baixo. Chamei meu “faz tudo” e ele tirou uma folha de madeira que poderia estar meio gasta e me mostrou que agora estava tudo lisinho embaixo do armário e não haveria mais problema. Que nada! Depois de um dia lá veio Chico novamente com farpas maiores ainda. Ele está literalmente comendo todo o armário por baixo, pois o vão é exatamente do tamanho dele. Então ele come o teto da casa dele...
O tal pipi dog, invenção dos humanos, agora só serve para que Chico coloque de castigo todos os brinquedos que ele tem. Não entendo, acho que Chico também precisa de uma psicanalista. Ele pega um por um, todos os brinquedos e os coloca de castigo no pipi dog.
Só sei que o preço dele, mais a caminha, mais a bolsa para levá-lo passear, mais brinquedos, mais vacinas, mais o portão que agora foi outra história para morrer de rir (não sei se choro ou se dou risada), já chegou no preço do primeiro cachorrinho que eu vi.
Pois é, o portão. Como a veterinária falou que eu o deixasse num lugar isolado, na área, para que ele aprendesse a fazer xixi no lugar certo, eu coloquei meu pôster de cantora, da época que cantava na TV Bandeirantes, que fim de carreira..., para separar a área, da cozinha. Mas fiquei com pena do bichinho ali isolado e achei que se colocasse um portão, ele poderia me ver dando as dez aulas que dou diariamente e se sentir menos separado de sua dona... eu.
Instalei o portãozinho e da sala eu o via e ele a mim. De repente, no meio da aula, quem aparece na sala dando risada da minha cara? Chico, todo satisfeito. Na dúvida, eu e meu aluno o colocamos novamente do lado da área e ficamos observando, pois achamos impossível que ele atravessasse a grade. Ele colocou a cabeça e foi se espremendo todo até que passou e veio novamente gargalhando na nossa cara. Nada feito. Vou ter que colocar tela para que ele não passe mais.
Caramba!
E o pior ainda é ter as pessoas contra mim... Quando outro dia mencionei que se eu não agüentasse, não me adaptasse, eu venderia o bichinho ou doaria para meus netos, caíram matando, dizendo que eu não tinha coração, não tinha cabeça para ter cachorro, que o pobrezinho já estava apegado a mim. Virei a bruxa da Branca de Neve. Outra vez. Já vi este filme quando internei minha mãe numa clínica.
E eu? Quem cuida de mim?
Então cheguei à conclusão que estou com depressão pós-parto. Querer o filho eu queria, mas ter que cuidar, lavar chão dez vezes por dia, dispensar todo meu tempo livre, que já é pouco, para ele, ficar dando aulas preocupada o tempo todo que o bichinho pode morrer entalado com uma farpa de madeira, gastar uma grana que poderia gastar para mim mesma e ainda ter que pensar no que vou fazer quando tiver que viajar, aí são outros quinhentos.
Alguém se habilita???
Segunda Parte
Vamos falar a verdade. Hoje em dia quantas mães cuidam de verdade de seus bebês? E a desculpa é que trabalham fora, mas eu também sempre trabalhei. No meu tempo de mãe lavei mil fraldas de cocô, fervi mamadeiras e chupetas, lavei bundinhas toda vez que os filhos faziam cocô, dei banho. Além de brincar, estimular, ensinar a ler e por que não contar, até a dirigir eu ensinei meus filhos. E com a maior paciência. Agora tudo é diferente. As mães, apesar de todas as facilidades: fraldas descartáveis, lencinhos umedecidos, aparelhos para ferver a mamadeira, etc..., ainda têm as famigeradas babás, que assopram a comida do bebê e a mãe nem vê (já vi esta cena nos shoppings inúmeras vezes). Eu mesma nunca assoprei na comida dos meus filhos.
Pois é, vou comprar os lencinhos umedecidos para Chico. Toda vez que eu vier da rua, vou gastar um lencinho para cada patinha. Eu estava usando uma toalhinha branca, que ficava preta a cada passeio. Vou facilitar minha vida de mãe moderna. Se precisar vou colocar fralda descartável, como vi hoje no cachorrinho de uma amiga. Vou contratar um adestrador para ensiná-lo a dar a patinha e quem sabe este profissional também vai lhe dar de comer soprando na comidinha dele...
Mas , sem brincadeira, estou começando a me divertir com Chico. Corro pela casa e ele vem atrás de mim. Na rua ele faz o maior sucesso. Ele é lindo. Ontem fomos ao Center 3 e todos paravam e faziam festa. Tenho reparado que as pessoas fazem mais festa para os cachorros do que para bebês. Como disse o marido de uma amiga minha, estamos humanizando os cachorros. Hoje fui com Chiquinho tomar café da manhã na Padaria Vila Bahia e todas as mesas tinham cachorrinhos, quietinhos, aguardando que seus donos tomassem seus cafés. E cachorro é um ótimo puxa papo, conversei com um jovem da idade do meu filho, com uma senhora, com outro casal. Ele é divertido, corre pela casa com minhas havaianas agarradas pelos dentes e fica no meu colo enquanto escrevo minhas crônicas.
Tenho brincado bastante com ele e estou começando a me adaptar. Vamos ver se é fogo de palha ou amor de verdade...
sábado, 10 de setembro de 2011
Escritos de Tia Rosetta
Mara
J´ai une petite nièce, fille de ma soeur. Elle s´appelle Mara.
Quand j´ai quelque chagrin, il suffit que je la songe pourquoi la tristesse s´efface.
Tout les enfants sont jolis et je les aime tous, mais Mara est particulièremente belle et je l´aime au dessus de tous les enfants dela terre.
Elle a quatre ans, un petit visage rond, des yeux très grands d´un bel brun brillant et une charmante petite bouche rose. Elee est comme un oiseau; elle chante, saute, pépie toujours. Elle est ma petite poupée et je m´amuse en lui faisant les folies robes.
Je ne connais rien d´aussi doux que son baiser lorsqu´elle m´ambrasse pour me dire "je t´aime tante Luetta" car elle ne sait pas encore prononcer mon nom.
Le réveil de Mara
Rien de plus joli que Mara, ma petite nièce, lorsqu´elle dort. C´est la grâce, la naiveté, un ange qui dort. On la regarde dormir et on reste ému; on croît, alors, à la bonté et on ne houge pas pour ne pas l´éveiller.
Mais, si elle s´eveille c´est un nouveau charme: En même temps, elle ouvre les yeux et sourit car elle sourit toujours quand elle s´éveille comme si elle viendrait d´un lieu heureux. Puis elle renferme les yeux comme pour revoir le joli songe; puis elle les ouvre de nouveau, se retourne dans le berceau, cache les joues roses dans l´oreiller et enfin, elle dit avec une delicieuse voix pleine encore de sommeil - "Bonjour!" Les anges du Paradis doivent le dire ainsi "bonjour".
Emocionante, não é? E assim eu me dou conta mais uma vez que estamos aqui de passagem, uma viagem, onde devemos aprender tantas coisas e realmente um dia, mais cedo ou mais tarde, voltaremos para casa, ao lado DELE, que é nosso Pai.
sábado, 13 de agosto de 2011
As pérolas de ATIBAIA
O piso da casa havia sido trocado, as paredes pintadas, uma nova etapa da vida. A filha morava distante e o filho havia recentemente mudado para a república da Faculdade, numa cidade a três horas de distância, alertando:
- Mãe, já caiu sua ficha? Não moro mais com você.
Tinha deixado um dos banheiros sem reforma, até que uma amiga me perguntou o motivo. Aí me veio a idéia.
Marinheira de primeira viagem, totalmente inexperiente em banheiras de hidromassagem e não vendo a hora de ter a sensação de total relaxamento, após um dia de 14 horas de trabalho ininterrupto, não resisti à tentação e cedi aos meus caprichos. Por que não? Por que não me dar ao luxo, aos 50 anos de idade, de ter uma banheira só para meu lazer?
Estava animada. Os gastos da reforma tinham sido altos, mas não custava nada fazer uma pesquisa de mercado, verificar o preço da tal banheira. Uma coisinha a mais.
Tive que criar coragem, pois para mim banheira de hidromassagem é coisa de gente rica. Liguei pedindo informações para uma amiga que vendia piscinas.
Que surpresa agradável. A amiga, além de me tranqüilizar, me ofereceu preço de custo e pagamento em três cheques. E quando perguntei quanto à instalação, ela disse que era só ligar dois fiozinhos e pronto.
Que animação. Já saí cantando, nem precisava de um par: Que tal nós dois, numa banheira de espuma. Num dolce far niente.
Chamei o pedreiro, aquele cara que inventa fechaduras estrambóticas, faz adaptações do arco da velha, como dizia meu filho, o próprio Michelangelo, bom para serviços gerais, encanador, eletricista e inclusive, nas horas vagas, artista. Sim, afinal ele não havia colocado aquele monte de andorinhas no painel do pintor italiano surrealista?
Ele me disse que precisava do material, coisa à toa, para fazer a instalação.
Bem, entre joelhos, a coisa estava ficando sexy, engates, tubos, luvas, adaptadores, conectores, ele me fala: nipples, os quais, mesmo sabendo a tradução técnica, ou seja, bocais roscados, a imagem dos bicos dos seios, não me saia da cabeça. Caramba!, o que os nipples tinham a ver com a minha banheira?
O dinheiro sumindo. A brincadeira saindo cara. Como se não bastasse, tudo pronto, testando. Motor funcionando, água borbulhando, e totalmente fria.
- Mas Nenê!
Este é o apelido do nosso Michelangelo.
- A água está fria.
Ele responde, como se nada fosse:
- É assim mesmo!
O sangue italiano subindo na cabeça, falo mais alto:
- Como é assim mesmo?
Ele pacientemente:
- Não tem problema não, a senhora coloca água do chuveiro.
Fora de controle, explodi:
- Então vou ter que tomar um banho bala para não esfriar a água? Como vou relaxar? Não está certo. Tem que ter uma solução!
Nenê arrisca:
- Então temos que sair e comprar um aquecedorzinho.
Lá fomos nós pra a casa de materiais.
22:30. Para não pensar na fria, em todos os sentidos, que eu tinha entrado, na grana, nos gastos extras, eu estava quietinha na cama, calmamente, lendo um livro. O telefone toca. Meu tio faz brincadeiras do tipo, Inauguração X Banho de Espuma ao vivo e a cores. De repente me pergunta se está tudo em ordem quanto à banheira. Respondi que só estava faltando testar no dia seguinte, com o novo aquecedor. Pra quê fui tocar neste assunto? Ele mudou de tom imediatamente, disse que Nenê não entendia nada, que ia mandar um especialista amigo dele, que se os fios não estivessem a não sei quantos milímetros de distância, minha casa ia para os ares, explosão radical, curto total, choques, literalmente, na banheira, etc...
Não dormi. Ficava imaginando o terreno da casa, vazio. Tudo queimado e meus filhos chorando. Não havia sobrado nada para eles, nem casa, nem mãe. Tantos anos trabalhando para ter este único imóvel e por causa de uma banheira, um mero capricho, nada restou.
De manhã, com a cara amassada, humor de cão, ainda tentei me animar com o Cd da Evita. Mas a história ainda não tinha acabado. Tinha mais. Após três dias de choques psicológicos e financeiros, após a minuciosa inspeção do especialista no assunto, antes de ligar a famigerada banheira, o qual me garantiu que a ligação estava perfeita, quando Nenê ligou o botão, senti cheiro de queimado. Pulei assustada da cadeira, onde estava sentada, trabalhando nas coisas da escola. Nenê parecia um louco. Desligava as chaves da luz, entrava no banheiro, saia, subia no forro da casa. Estressado, o suor escorrendo da testa. Passou por mim como bala de canhão, um foguete, com o motor debaixo do braço, em direção à cidade, engasgando nervosamente e resmungando abalado e abobalhado, que ia até a cidade verificar aquele motor. Passou de Michelangelo a Rambo.
Finalmente, depois de uma semana de transtornos e menos R$1.200,00 na conta corrente, a banheira funcionou, a água borbulhou e ficou quentinha e todos nos benzemos nela, aliviados.
Viram como era simples, era só ligar dois fiozinhos!
sexta-feira, 8 de julho de 2011
Eu, as fadas e a psicanalista
Na minha última sessão a psicanalista perguntou:
“Por que você chama suas tias de fadas?”
Como explicar tantos sentimentos e tantas maravilhas da minha infância?
Meus pais eram pessoas bonitas e inteligentes. Cultos e de bom gosto. E como eram apaixonados. Ele foi o único homem da vida dela e ela, a única mulher da vida dele. Dedicatórias e bilhetes de amor faziam parte do cotidiano de minha mãe e ele sempre lhe dizia que ela era a melhor e a mais bela mulher do mundo.
E as tias? Verdadeiras fadas, cada uma com um dom especial. Quanto talento! Sabiam fazer de tudo, desde cozinhar, preparar festas, decorar o ambiente, tocar piano, cantar, costurar, bordar, tricotar e inclusive criar chapéus ousados e incríveis.
Uma bordava muito bem, ponto cruz, super delicado; outra fazia chapéus; outra fazia flores, cortando as pétalas em tecidos finos, abaulando-os com ferrinhos quentes, e com detalhes sutis. Outra tocava piano, uma concertista. Eram seis mulheres, mais minha avó, sete fadas, sete mulheres que foram referência em minha vida, em meus valores: educação, respeito, alegria de viver, amor à família, dedicação, trabalho árduo, pureza de espírito, fé em Deus, talento e tantos e tantos outros valores.
Eu ficava ali, apaixonada, encantada e totalmente feliz.
Elas me vestiam como se eu fosse uma princesa. Tive os vestidos mais graciosos que uma menina possa sonhar, de alta costura, feitos com esmero e cheios de detalhes encantadores e o melhor de tudo, por pessoas que me amavam, o que faz toda a diferença.
Tia Rosetta os costurava, cheios de nervuras, babados, casinhas de abelha, enquanto eu era menina. E para Luiz Antonio, meu irmão, eram os terninhos de veludo e camisas com jabot, parecia um príncipe.
Tia Violetta fez meus vestidos de adolescente, do baile de formatura, do noivado, do casamento e o guarda-roupa completo da lua de mel. Os mais sociais, com aplicação de flores, com todo capricho e bordados com lantejoulas, miçangas e canutilhos.
O da viagem de núpcias era um tailleur de fustão branco, com acabamento em seda vermelha e azul marinho. Na saia havia uma fenda, por onde saía um plissê, do mesmo tecido de seda, bem como a blusa sob o tailleur. O toque final? Um chapéu de fustão branco. Bolsa e sapatos brancos, com detalhes em azul marinho. Estilo Jackie Kennedy. Ainda um colar de pérolas para adornar o pescoço.
Quando eu era criança, estas tias me davam banho, me perfumavam, me vestiam, me penteavam colocando laçarotes, tiaras, enfeites lindos nos cabelos. Sapatos de verniz, e sempre uma bolsinha para combinar.
Nos anos 50, aos domingos, íamos na casa de minha avó Pina que ficava em uma vila na R. Afonso Celso n. 567, casa 24.
Adorava ir lá, pela música, pelos amiguinhos na vila, pelas tias fadinhas, que contavam histórias, faziam doces gostosos e cuidavam tão bem de mim.
A mesa era grande. Almoçávamos certa de 15 pessoas, Tia Rosetta, tio Antonio, tia Thereza, tio Antonio, tia Violetta, tia Margarida, tio Dario, tia Candida, tio Octacílio, tia Lena, mamãe, papai e eu
Minha avó Pina sorria sempre e falava muitos ditados populares napolitanos. Ela fazia uma comida muito gostosa e eram tantos os pratos que os olhos se enchiam das delícias, sem saber por onde começar. Todas as tias trabalhavam e ajudavam na casa. Pareciam realmente criaturas das florestas, dotadas de magias especiais, iguais aos personagens das histórias que Salete me contava quando eu morava em Pinheiros. Salete, outra lembrança maravilhosa. Onde estará aquela moça bonita que lia tantas histórias pra mim?
Depois do almoço farto, todos iam para a sala de visitas, onde havia um sofá grande, duas poltronas, e o imprescindível e maravilhoso piano, afinal todas as tias tiveram que aprender a tocá-lo e todas estudavam nele uma hora por dia. Na época que eram crianças, o professor passava a tarde na casa e tinha direito a lanche, chá, intervalo, café, biscoitos.
Normalmente era minha mãe a primeira a se sentar ao piano e tocar. Todos se colocavam ao seu redor cantando, acompanhando as letras das músicas.
Todos me achavam linda, graciosa. Todos me paparicavam, pois fui a primeira neta e a primeira sobrinha. Que infância inesquecível. Fora o estímulo à vaidade, vinha o carinho, a dedicação, os mimos.
E os lanches? Nem se fala. Deliciosos, com bolos, tortas, geléias, leite com açúcar queimado, gemadas e sem sei mais o que, tantos eram os quitutes e a variedade. E na época de Natal outras eram as especiarias: struffoli, zeppoli e pastiera de grano.
Tia Violetta tinha muita paciência. Ela fazia barquinhos com pão e manteiga, ou geléia, para mim e para Luiz Antonio, meu irmão e colocava-os todos enfileirados para que a gente fosse comendo um a um. Aliás, falando em geléias, ela era especialista: geléias de uva, de abóbora, de tomate, de carambola.
Tia Violetta adorava ouvir as novelas de rádio. Enquanto costurava para suas clientes, ela me dava algumas revistas antigas de moda, eu cortava as fotos das top models, brincava com elas, que conversavam entre si, fazendo assim um teatrinho, enquanto prestava atenção também nas vozes das atrizes que faziam seus personagens no rádio. Vozes marcantes como a de Ivani Ribeiro, Yara Lins, Arlete Montenegro e outras.
Tia Margarida era a ternura personificada. Adora sentar aos seus pés e observá-la enquanto bordava. Ela era justa e sempre tinha uma palavra boa para acalmar a todos. A história de amor dela é triste. Tio Dario esperou 13 anos para casar com ela, pois era tímida e não tinha coragem de aceitá-lo como namorado. Nas Festas Juninas, tio Dario sempre trazia caixas de fogos de artifício que soltávamos à noite. Ficávamos olhando para o céu, chuva de prata, chuva de ouro. Um dia tia Margarida resolveu se casar com ele. Infelizmente logo depois do casamento ela morreu e ele ficou sozinho. Foi se encontrar com ela logo depois. Morreu dormindo, embalado pelo seu amor.
No colo da tia Candida eu adorava dormir. Era quente e aconchegante. Tia Candida era engraçada, estava sempre rindo. Tinha também muita paciência para nos ensinar, ajudando nas lições de casa. E quantas e quantas vezes passamos os finais de semana na casa dela e do tio Octacílio e eles, se revezando faziam lições conosco, dando reforço escolar, para Luiz e para mim.
Tia Lena era minha professora de piano, uma concertista. Tocava magistralmente. Tinha um pouco de medo dela. Ela colocava moedas sobre minhas mãos, enquanto eu tocava e não podia derrubá-las, para que minha postura ao piano fosse perfeita. Se as derrubava, lá vinha ela, com uma régua, batendo nas minhas mãos. Mas quando ela se sentava ao piano e tocava, eu até entendia o porquê era tão rígida. Ela crescia perante meus olhos e eu a ouvia enlevada.
Tio Antonio, o único homem da casa, tinha uma voz bonita. Sentava-se na escada que levava ao segundo andar do sobrado, com seu violão. Um romântico. Eu o admirava e continuo admirando até hoje, o considero um sábio.
A casa de minha vovó Pina era movimentada. Aos domingos, antes do famoso almoço, íamos à Missa, na Igreja da Saúde. Algumas vezes cantávamos no coral. Fazia parte dele e me sentia muito orgulhosa de cantar em latim.
.........
E hoje, depois de passar umas horas com tia Rosetta e lhe contando sobre minha conversa com minha psicanalista, ela perguntou: “Quer ver alguns dos meus trabalhos e da Tia Margarida?” E é lógico que eu disse que sim.
Então ela abriu uma gaveta e de lá tirou as toalhas de mesa, em linho italiano, com todos aqueles bordados e o acabamento perfeito das beiradas da toalha e me lembrei, vi a cena, vi a toalha sobre a mesa e viajei para Afonso Celso, e vi o local que cada uma daquelas fadas costumava ficar. Senti o cheiro na cozinha e vovó Pina rindo e cozinhando, com seu avental. Senti o calor aconchegante daquela família, que foi minha na infância. O cenário ficou perfeito porque se tornou vivo.
Disfarcei, me despedi e sai alegremente da casa da tia. Na rua dei adeus a tia Rosetta, que me olhava da sacada e virando a esquina desabafei caindo no choro, sai pela rua soluçando, desejando ser aquela menina de cinco anos que pensava que o mundo era só feito de amor.
domingo, 1 de maio de 2011
Velhinha é a vó!
Despertador toca às 6 da manhã. Acordo, me espreguiço e abro os olhos. Agradeço a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama sobre mim e minha família todos os dias. Olho as fotos do meu pai, minha mãe e Greicy e os beijo mentalmente. Vou levantando devagar. Faço um pequeno alongamento. Vou à cozinha, tomo meus remedinhos. Vou para o banheiro, lavo o rosto, coloco colírio e depois passo creme no meu rosto. Tomo meu chá com torradas e uma fruta. E adoro fazer três coisas ao mesmo tempo, enquanto a torrada torra e a água ferve, faço minha make up... que chique...
Minha aluna chega, são 6:45. E depois outra e outra. Saio de casa por volta do meio dia, almoço e vou dar aula no Citi. De lá vou para a Academia e faço uma hora e meia de exercícios. Volto para casa e tenho alunas até 9 da noite. Esta é a rotina às segundas, quartas e sextas. E nos outros dias, além dos alunos do dia, fisioterapia, acupuntura, terapia e aulas de dança e de violão.
Bem, estou contente porque minha psicanalista me fez ver que ainda não estou na idade de me considerar idosa, apesar de 60 anos ser considerada idosa no Brasil. Problema cultural.
Acho que como vivi muitas coisas, muitas experiências diferentes, sete fases da vida tão distintas, parece que vivi sete vidas, de verdade. Tanto que me achava uma gata, rsrsrs, mas agora já estava me considerando uma Dona Canô.
A realidade é que ainda tenho uns 20 anos, no mínimo, de trabalho pela frente e para me aposentar de verdade. Ontem vi uma senhora toda durinha, de cabelos pintados, no ônibus e ela conversando comigo me disse que é professora de yoga, que dá aulas, pega ônibus todos os dias, está na ativa, e ela tem 83 anos de idade. Se ela pode, por que eu não posso? Não bebo, não fumo, me exercito e amo a vida. Os limites estão na nossa cabeça. Sei que meu coração está meio preocupante, um pouco atrapalhado, como eu, mas vai melhorar. Tenho certeza.
Então hoje, depois do incentivo da Bia, que quer me ver sempre linda, e da Tete, que falou que “senhora”” só aos 90 anos, fui pintar os cabelos novamente. Fica para mais tarde esta história de assumir os grisalhos, paciência. Eu até que estava gostando, me achando uma senhora distinta, mas só eu, ninguém mais estava aprovando.
Bem estou adorando minha ginástica, minha psicanálise, minha acupuntura, minha massagem e minhas aulas de dança.
Quero muito aprender violão também. Só não tive tempo de sentar e treinar nada. E não é desculpa esfarrapada, ontem comecei a trabalhar às 6:45 (acreditem se quiserem) e dei aulas sem parar até 21:30. Puxa vida! Quem tem saco para fazer "faculdade de musica" nesta altura do campeonato? Bem vou tentar me organizar para sentar e estudar as tais cifras.
Quero é curtir a vida, me divertir, ir ao cinema e rir com as amigas. Aliás, minhas amigas me preenchem muito e conviver com elas, ver meus netos e minha filha, pelo skype, todos os dias e ter dois domingos por mês para curtir meu filho, tem sido MARAVILHOSO!
E vou continuar me esforçando no regime, pelo menos agora me animei depois de perder 2 kilos e meio. Vamos lá! Coragem velhota!
“Velhinha é a vó.”
sábado, 30 de abril de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
Marido, agora? Não!
Realmente hoje eu prefiro estar sozinha, sem companheiro. Marido agora? Não! Gosto muito da minha liberdade, curto dormir sozinha, não estar presa a nenhum compromisso. Eu gosto disto.
Há um mês mais ou menos acordei com esta frase na cabeça e a escrevi na minha agenda:
“Em busca da felicidade descobri que o maior desafio para ser realmente feliz é aprender a amar todas as pessoas indistintamente, pelo menos tentar. Aprendi também que liberdade é poder”.
Continuo com a filosofia do amor universal, é meu lema na verdade. O amor universal é mais gratificante, mais completo e mais transcendental.
Sim, existe uma tristeza pelo tempo que passou tão depressa e eu não pude dar continuidade numa relação que fez aflorar minha sexualidade. E talvez naquela época eu até poderia ter encontrado outra pessoa. Mas com certeza não fechei as portas. Até, nas minhas “horas vagas”, tive alguns encontros para conversar, conhecer novas pessoas, mas não houve continuidade porque logo nos primeiros encontros eu os analisei em frases que eles falavam mal de outras mulheres e sendo assim cortei o barato deles. Um deles comentou o quanto deveria ser ridícula uma amiga minha, que nos apresentou, ajoelhada, de quatro, gorda, fazendo amor com o marido. Outro “paquera” disse que se separou da mulher só porque ela teve câncer e cheirava à quimioterapia.
Caramba! Eu estava acostumada com um homem que falava bem de suas mulheres.
Eu disse “nas horas vagas” porque assim que meu “caso” com “meu homem” terminou, eu tive uma série de contratempos pesados. Primeiramente minha mãe piorou da doença e me dava trabalho, depois a escola começou a decolar e eu trabalhava de segunda a segunda, 14 horas por dia. Depois veio a morte da Greicy e tudo o mais me pareceu muito pequeno e realmente insignificante diante do amor que eu sentia por ela. A depressão tomou conta de mim e do meu filho. Aí a mudança para São Paulo e começar a procurar emprego aos 53 anos de idade.
Então sexta feira passada, quando chorei de saudades daquela paixão, eu me dei conta que o tempo passou e não seria possível ter novamente aquele tipo de relacionamento, quente, cheio de energia e juventude. Outro tipo de relacionamento eu realmente não sinto falta. Pode acontecer, mas acho muito difícil alguém me conquistar pela delicadeza, pela fineza, pela generosidade, pelo companheirismo, pela bondade. Se aparecer um assim, vou agarrar com unhas e dentes, com certeza. Mas meu choro após o sonho foi o choro da impossibilidade de reviver algo como tive em 1991, ou seja, 20 anos atrás.
Mas sei enxergar as coisas, eu sou realista. Eu tenho mais motivos para estar bem e feliz do que triste e infeliz. Estou saudável. Tenho vontade de fazer coisas. Neste final de semana vou começar um curso de dança (já fiz vários). Vou viajar muito ainda, tanto para ver meus netos em Roma, quanto para visitar meu filho, que no ano que vem vai morar em Montreal novamente. Vou ter oportunidade de viajar dentro do Brasil uma vez por ano e me divertir. Vou continuar assistindo os mil filmes, adoro cinema. Vou continuar a conviver com minhas amigas. E a vida continua MARAVILHOSA!
domingo, 14 de novembro de 2010
Fim de semana pacífico
Ontem acordei tarde, fiz tudo com calma, comi minha maça de café da manhã, como todos os dias, por isso nunca fico gripada. Depois fui andar devagarinho pela rua (mulher da rua, como diz o Fernando para brincar comigo).
Depois do almoço fui à Livraria Cultura curtir os novos títulos de livros, ver as novidades. E mais tarde fui ao cinema com Elita.
Assisti “Minhas mães e meu pai”, uma família nada convencional. É sobre um casal de lésbicas, que fazem fecundação artificial, com o mesmo doador. Uma tem uma filha e a outra tem um filho e estão juntas há 20 anos. Os filhos resolvem procurar o tal doador. Achei o tema interessante, mas mal explorado e muito machista. Uma das mulheres é castradora, dominadora, possessiva e a outra submissa e dependente. Não gostei da abordagem, eu teria encaminhado o final de outra forma, mas vale assistir.
Voltando para casa, dei uma olhada na minha caixa de Recordações, com tudo de bom de vocês, Claudia e Fernando, meus grandes amores.
Foi POSITIVO, muito positivo.
Hoje, ao invés de cinema, depois do almoço, fui tomar um café no Café do Ponto e vi que uma senhora (80 anos depois ela me contou) estava louca para puxar papo, então dei trela. Ela contou tudo da família dela, me deu endereço e telefone. Disse que eu devia ser de Libra porque eu era muito boazinha. Ah meu Deus!
Depois ainda me fez o sinal da cruz na testa para me abençoar dizendo que ela tinha adorado conversar comigo porque mora sozinha e às vezes tem um pouco de depressão. Problema dos solitários. Por outro lado, temos a liberdade de ir e vir e fazer o que quisermos de nossas vidas.
Cleinha tinha me convidado para ir a casa dela, mas acabei ficando por aqui mesmo. Quietinha no meu canto.
Sou uma pessoa feliz. Tenho dois filhos inteligentes e saudáveis. Sou inteligente e alegre. E gosto da minha companhia, aliás, minha melhor companheira sou eu mesma e com certeza JESUS, que adoro e confio.
Estou muito bem, ainda mais quando sei que vocês estão bem e hoje vocês dois estão ótimos. Fernando com Paulinha, sua companheirona da vida e dos esportes e você com Dori, que com todas as chatices, tem dividido com você as responsabilidades dos bebês, certo? Dividido é modo de dizer, mais ou menos dividido, mas melhor do que nada, pelo menos você não fica sozinha. Ele é um grude, “sticy but not sweety” (a musica da Madona é "sticky and sweety") e vocês formam uma linda família, que era tudo que você mais desejava desde pequena, uma família com pai, mãe e filhos, gêmeos ainda, um milagre duplo, até o cachorro veio de brinde, que mais você pode querer???
Quanto a mim, que mais posso desejar? Foi um fim de semana de paz e tranqüilidade, graças a Deus, e ainda me recarregou de energia.
domingo, 19 de setembro de 2010
Eu e meus sonhos esquisitos 2
Bem, como eu disse na primeira parte dos Meus Sonhos Esquisitos, sonho muito com meus entes queridos, que já partiram para o Nosso Lar, então outro noite eu sonhei que estava na casa antiga de minha tia Gilda, que tinha uma escadaria de mármore. No sonho a escadaria era maior do que na realidade, meus “exageros” continuam nos sonhos. Minha avó estava no pé da escada e disse que não ia agüentar subir tudo sozinha. Então eu a peguei no colo e subi, como se ela fosse uma pluma, com o coração quente de tê-la tão perto de mim. E acordei com a sensação gostosa de tê-la tido em meus braços, mesmo que por alguns instantes.
Numa outra noite sonhei que fui visitar minha amiga Monica, que sofreu um acidente de carro e está numa cadeira de rodas. No sonho ela me recebeu com um vestido branco rendado, muito feminina, como ela é mesmo, e ela estava descalça. E veio na ponta dos pés, caminhando na minha direção. E eu fiquei tão feliz por vê-la tão linda e andando novamente, ela me parecia uma fada do bem. E perguntei por que ela estava andando na ponta dos pés e ela respondeu que já podia andar bem, mas que sentia um pouco de dor nos dedões dos pés.
Depois foi o sonho do bichinho de estimação. Sonhei que tinha um bichinho, do tamanho do Fidel (meu cãozinho que morreu há dois anos), uma gracinha. E eu o pegava no colo, como se fosse um bebê. Depois o colocava no chão e ele virava de barriguinha para cima, como um cachorrinho, abanando a calda para ganhar carinho no peito. Só que não era um cãozinho. Era um jacarezinho. Um lindo jacarezinho verde de estimação.
E ontem foi o sonho delicioso com minha mamma. Ela estava passeando comigo em Higienópolis. E ela estava linda, com os cabelos pretos penteados e impecavelmente vestida, como sempre, chique. Aquela amiga meiga de tantos domingos que passamos juntas, até ela adoecer. Aí eu disse:
“Mamãe, quem disse que milagres não existem! Você estava tão mal naquela clínica, que eu tinha perdido as esperanças de vê-la como você é novamente. Mas agora você está aqui, linda e perfeita como antes.”
Ela me sorriu e fizemos nossos planos dos próximos finais de semana, para procurar um apartamento para ela pertinho de mim.
E fui acordando com uma voz carinhosa chamando: “Mamãe! Mamãe!” E na confusão do sonho e da realidade eu não sabia se eu era minha mãe e a voz era a minha chamando por ela ou se era eu mesma e a voz era da minha filha.
domingo, 29 de agosto de 2010
Desapego X Amor X Ego
É preciso aprender a amar sem se apegar e ao mesmo tempo esquecer-se de si mesmo.
A vida é uma grande escola. Cada um aqui recebe as lições necessárias para seu crescimento espiritual.
Sempre soube qual era minha provação nesta vida. Dizer adeus tantas e tantas vezes à minha filha, tê-la sempre tão distante e tão próxima do coração: A boneca.
Tantas vezes deixar meu filho partir, quando gostaria de segurá-lo por perto por mais meia hora que fosse e acariciar suas costas, seus cabelos, e lhe fazer um cafuné.
Meu pai que partiu quando eu mais precisava dele, recém divorciada, jovem, com uma filha de dois anos para criar e pronta para enfrentar leões para protegê-la. Sozinha.
Os amores que não permaneceram, que partiram. A solidão. Desapego.
Agora os netos. Tão gostoso e confortante segurá-los nos braços, sentir sua pele macia, falar baixinho nos seus ouvidos: “Vovó te ama tanto!” e ter que partir. E mais uma vez, me desapegar.
Vê-los duas vezes por ano, quem sabe.
Sim, me entregar de corpo e alma e depois arrancar meu coração para deixá-lo com Francesco e Antonio.
Amar é tirar férias para trabalhar de cozinheira, babá, empregada e ainda pagar para isto, e ainda usar as míseras economias, para poder vir dar uma força a quem amamos.
Amar é ser humilde e perguntar ao companheiro da filha que horas ele quer que você chegue no dia seguinte. Perdoar quem já lhe feriu.
Amar é se dar, sem esperar nenhuma recompensa, a gratidão de um beijo carinhoso por exemplo, e se este vier, alegrar-se infinitamente porque foi inesperado.
Amar é ouvir o choro do bebê e tentar adivinhar o que aliviaria sua dor.
Amar é não medir esforços mesmo sabendo que estas duas luzinhas poderão te estranhar quando te virem na próxima vez, que sabe-se lá quando será.
Então acho que cumpri mais uma vez minha missão, de harmonia, de perdão, de humildade, de dedicação, de entrega, de amor incondicional, de presença quando meus filhos mais precisam de mim, meu apoio emocional.
Parto feliz pela paz que tentei dar a meus netinhos neste mês de agosto de 2010, e triste pelas saudades que já sinto antes de partir.
Que Deus abençoe esta família e encha o coração destes pais de amor, pelo milagre da vida de seus filhos.
sábado, 24 de julho de 2010
O anel
O anel de família
Há 64 anos um homem apaixonado, que escrevia lindas declarações de amor nas partituras que dava de presente à sua amada, casava-se com ela, a única mulher de sua vida, sendo ele também o único homem da vida dela.
Havia sido um encontro casual, num bonde da Paulista, em 1943. Ambos italianos, vindos de diferentes partes da Itália. Ela uma jovem tímida e romântica e ele um jovem inteligente, esforçado e um pouco rebelde.
Foi amor à primeira vista e logo começaram a namorar. Ele freqüentando a casa dela, onde vivia com a mãe, cinco irmãs e um irmão. Almoços aos domingos, fartos, deliciosos, após os quais ele se deleitava com os saraus. Ela, sua musa inspiradora, tocando piano, enquanto as irmãs cantavam em coro. E aqueles domingos continuaram por muitos anos. Doces domingos de uma família fora de série.
Foi ali que ele encontrou a família dele. Foi ali que ele teve seu oásis, todo seu paraíso, toda sua alegria. Foi nos braços dela que ele foi feliz e de peito aberto dizia que ela era a melhor e a mais bonita mulher do mundo.
E o casamento veio a seguir. Dois jovens apaixonados.
Ela engravidou. Ele começou a chegar mais tarde do que o de costume, lá pelas oito da noite. Ela se preocupou. Ficou enciumada pensando mil coisas, achando que ele a estava traindo. Mas a razão era o anel.
No dia do nascimento de sua filha ele lhe entregou o anel, simples como ele, mas dado com todo carinho e todo seu sacrifício. Ele estivera no ourives todas as noites enquanto o amigo o criava.
Ela ficou encantada e não o tirou mais do dedo, até que a filha, vinte anos depois, por sua vez, deu à luz a outra menina, então a boneca.
E hoje, esta boneca está no hospital esperando que cheguem seus dois meninos, dois piccolinos, Antonio e Francesco.
Neste momento, meu Deus, como eu queria estar ao lado dela e colocar em seu dedo o anel que pertenceu à avó, Inessa, à mãe, Mara e que de agora em diante estará no seu dedo, até que venha outra menina, uma neta para a boneca, talvez, vejamos, afinal a vida é uma caixinha de surpresas.
Que Deus os abençoe agora e em todos os momentos de suas vidas.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
eu e meus sonhos esquisitos e misteriosos
Eu e meus sonhos esquisitos e misteriosos
Sempre sonhei muito, de todos os tipos de sonhos, coloridos, alegres, assustadores, mas principalmente esquisitos ou misteriosos.
Sonhos premonitórios, sonhos com os mortos, sonhos engraçados.
Depois de alguns meses da morte de minha mãe, que estava com alzheimer, tive um pesadelo super estranho. Como não a encontrava fui ver se achava o cadáver dela. Em uma sala enorme havia um arquivo, cheio de gavetas grandes onde estavam guardados os mortos. Quando abri uma delas vi o corpo de minha mãe, porém sem cabeça. Fiquei desesperada procurando a cabeça dela, até que finalmente a encontrei, com os cabelos negros arrumados, bem penteados. A cabeça intacta, perfeita, jovem como ela era antes da doença. E a levei até o corpo e encaixei a cabeça, como encaixamos as cabeças das bonecas. Aí suspirei aliviada. E acordei.
A doença de minha mãe mexeu muito comigo, ela era meu referencial, uma mulher alegre, linda, elegante, meiga e de repente havia se transformado, até mudado a personalidade e o humor. E eu sofri muito vendo minha mãe se apagar aos poucos.
Lembro também daquela manhã que acordei aos prantos com a certeza de que meu filho não veria mais a amada. Soluçando, tive a sensação de que alguma coisa os separaria. Liguei imediatamente pedindo a ele que nunca brigasse com ela, a namorada, porque eu tinha medo que o sonho se concretizasse e que eles se separassem.
Seis meses exatamente desta data minha futura norinha morreu num acidente horrível, aos 20 anos de idade. Foi um aviso? Foi uma premonição?
Depois sonhei com esta minha nora, uma filha do coração, que veio para me dar aquele abraço, que sempre tínhamos uma para a outra, um abraço de muito amor, muito carinho, muita empatia. Ela me apertou forte e me disse: “Estou bem”, “Eu te amo”, exatamente como costumava fazer, e acordei. Só que acordei com o peito quente, a sensação de que ela estava ali, foi perfeita, real. E tive a certeza de que ela estava bem mesmo.
Outro sonho foi novamente com minha mãe. E há pouco, doze anos depois de sua morte. Ela chegou, me abraçou e falou baixinho no meu ouvido: “Eu estou muito feliz, ele está aqui comigo”. E eu perguntei: “Quem?”. Ela então falou: “Ele, meu grande amor”. Intrigada e pensando que ela tinha algum amor secreto, insisti em perguntar: “Mas quem é este homem? Quem é ele?”. E ela sorrindo respondeu: “Bobinha, meu grande amor, seu pai, ele está aqui comigo.”
Acordei chorando de alegria e novamente com o peito quente e muito amor no meu coração. Afinal, eles estavam juntos, que maravilha. Meu pai e minha mãe, que só tiveram um ao outro, que viveram um grande amor, juntos, do outro lado da vida.
E o sonho com Fidel, meu basset que morreu há dois anos. Tão colorido, tão vivo, tão alegre, tão real e tão presente na minha vida nos 16 anos de vida dele. Cheguei em casa e vi que haviam várias doughnuts, rosquinhas doces, cheias de chantilly, pela casa toda. Fiquei apavorada gritando: “Quem colocou estas coisas para o Fidel, o fígado dele não vai agüentar tanto doce. Precisamos comprar ração”. Desci e encontrei uma mercearia, como aquela da minha infância, ao lado de minha casa, e peguei um pacote de ração, só que custava caro e eu não tinha o dinheiro. Fiquei desesperada. Pedi para o dono da mercearia para me vender só um kilo e ele aceitou. Abriu o pacote e colocou um kilo num saquinho, o qual levei correndo para colocar na vasinha do Fidel, que deu pulos de alegria. Meu pequeno Fred Astaire, meu amiguinho querido, do qual sinto tantas saudades.
E o que dizer dos sonhos góticos? Pois é, sonhei que eu estava numa festa gótica, numa discoteca, com luz escura, jovens, musica moderna. O local estava cheio de gente. Vestia um vestido de shantung azul marinho. E de repente senti que estava sangrando, como se estivesse com alguma hemorragia porque o sangue atravessou o vestido. Estava envergonhada e queria sair de lá sem ninguém perceber o que estava acontecendo. Levantei e fui me encaminhando para a saída. No canto da sala havia uma vitrine e quatro pares de sapatos cheios de sangue. Fui embora e logo acordei. Foi bem esquisito este sonho também.
Pelo menos uma vez por mês tenho estes sonhos fantásticos e cheios de surpresas. Se eu pudesse escolher meus sonhos, pediria para ver meus entes queridos novamente, aqueles todos que amo tanto e que se foram.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Contrastes da Paulista
Seis horas da manhã.
Ando pelas calçadas da Paulista, lotada de gente indo para o trabalho, com seus ternos e terninhos, para confirmar minha teoria de que paulistanos são muito trabalhadores e começam seu dia de luta, às 7 da manhã, isto sem contar o pessoal que trabalha nos laboratórios da redondeza, os quais começam às 6:00, muito menos os operários que começam às 5:00.
Os ônibus passam cheios de gente e me lembro de pegá-los, há dez anos, no Largo da Batata, pendurada na porta, para não perder o horário do primeiro aluno, que era às 7:00 na Paulista.
Mendigos por todos os lados. Cegos ajoelhados pedem esmola. Hippies, ainda nos anos 2010? Pois é, estão em frente ao Banco Real dando banho de água gelada nos filhos, em pleno inverno, no meio da calçada, enquanto estes gritam e esperneiam de frio.
Brigas constantes do mesmo casal, que logo depois fazem as pazes. Estão drogados.
Outra bêbada atravessa a Paulista, em pleno trânsito, e os carros param, por incrível que pareça. Penso ironicamente: Se fosse uma velhinha bondosa, não escaparia.
Por que? Porque aqui é o inferno e o paraíso ao mesmo tempo.
Esta nossa Paulista, da qual tanto me orgulho e da qual tenho saudades dos passeios de mãos dadas com meus pais, nos idos anos 50, agora, às seis da manhã, é um angustiante dormitório. Enfileirados no chão, todos os dias, vejo famílias de miseráveis, dormindo em caixas de papelão e cobertos com sacos de estopa.
Papéis, montanhas de papéis, folhetos, copos descartáveis, garrafas quebradas, pratos com restos de comida chinesa feita ali, sim, ali mesmo na Paulista, sujeira, cocô de cachorros, lixo, vergonha.
Wall Street brasileira está mais para lupanar peripatético, que para orgulho do paulistano.
Camelôs tentam vender o seu peixe. Entregadores de folhetos nos enfiam goela abaixo milhares de propaganda.
Personagens de todos os tipos fazem parte do meu trajeto diário. Por me sentir tão próxima, já lhes coloquei alguns apelidos, sem maldade e com muita tristeza, pois esta é a realidade do nosso Brasil.
O cagão abaixa as calças e caga na rua, em plena Avenida Paulista. Já dei de cara com a bunda dele na minha frente, logo cedo, inúmeras vezes. Meu café da manhã. O local da privada varia, dependendo das necessidades dele.
A nega maluca, assim denominada devido aos inúmeros palavrões que ela vomita o dia todo aos passantes, vive sozinha numa esquina, pertinho do Masp, dentro de alguns caixotes de papelão.
A família mora do lado da porta do Banco Itaú, pertinho da Augusta. Pai, mãe e filhos, os quatro, dormem num colchão, ali instalado, no qual continuam durante o dia, dando uma de John Lennon e Yoko Ono, preparados para dar entrevistas se houver um jornalista interessado.
O vaidoso chega a dar aflição. Ele tem um pente, um espelho e uma pinça, com a qual fica arrancando os cílios. Sim, os cílios, e fica com os olhos vermelhos e infeccionados.
A brasileira é especial. Gorda, peituda, forte, desfila com uma camiseta do Brasil. Será esta realmente a nossa cara? Uma fita amarela e verde em volta da cabeça. Só falta cantar o Hino Nacional.
O fedido tem uma ferida na perna, na qual ele amarra uma camiseta suja. Ele anda arrastando um cobertor imundo, que exala um cheiro terrível a dois quarteirões de distância, o estômago chega a revirar, é algo insuportável.
Homens e mulheres respectivamente em seus ternos e terninhos, andam elegantemente através deste nosso cartão postal de São Paulo, com celulares grudados constantemente em suas orelhas.
Todos passam sem notar os bêbados, crianças, homens e mulheres jogados no chão, com suas feridas expostas, abertas, para nos comover e ganhar alguns trocados.
Ninguém se olha. E me pergunto: Onde é o inferno? Aqui, na Av. Paulista.
Executivos estressados, passando seus dias dentro de um escritório, muitas vezes comendo na frente do computador enquanto clicam e teclam, teclam e clicam ininterruptamente.
O infeliz que dorme ao relento, o bebê dos malditos hippies. Paz e amor, onde? Quanta incoerência!
Todos estão acorrentados em suas prisões particulares, em suas mentes, em sua falta de sonhos.
Muitos funcionários se matam de trabalhar, de olhos vermelhos de tanto ficar na frente do computador, poucas horas de sono, morrendo de medo de perderem o emprego. Muitos salários são suficientes somente para seu vestuário e alimentação.
Lazer? Cultura? Tempo para os amigos?
A resposta é unânime quando pergunto o que eles fazem no tempo livre. Chegam em casa, tomam banho, jantam e ligam a televisão, na novela, a novela da vida. Nos finais de semana, dormem.
Ninguém lê? Ninguém conversa? Ninguém pratica esportes?
No ônibus ou no metrô vejo rostos tristes, olhos sem brilho. A maioria sai de casa às cinco da manhã e volta meia noite. Os vendedores de balas as colocam nos colos dos passageiros e fazem um discurso mecânico, decorado. Outros blasfemam se não damos nada. Outros se aproximam pedindo ajuda, alegando que estão com aids e precisam comer.
Mas sou otimista, acho que seria possível reverter esta situação. Penso em soluções. Sou prática. Após a criação do CEU, poderia ser criado o HELL. Hospedaria Especial para Loucos e Larápios. Um galpão enorme com chuveiros pra lavar toda sujeira do nosso país, que tem se tornado cada vez mais triste e centenas de caminhas de vento onde eles, estes que representam a maioria do povo brasileiro, possam dormir. Recolhidos, estes infelizes e depois de banho tomado e barriga cheia, eles poderiam começar a aprender, com voluntários, principalmente com aquelas pessoas, que não precisam trabalhar, e que se sentiriam muito mais úteis fazendo algo pela nossa Sociedade, a fazer algum artesanato, cuja renda serviria para manter o galpão. Criatividade todos eles tem.
Quem sabe um dia, poderemos ter uma Paulista à altura da riqueza do nosso país, compatível pelo menos com os milhões ganhos nos negócios realizados aqui.
É esta Paulista, o paraíso, que possibilita tantos empregos a tantas e tantas pessoas, que oferece programas culturais gratuitos, concertos, exposições, cursos, no Itaú Cultural, no Sesi, na Casa das Rosas, espetáculos maravilhosos e tudo free. Lojas lindas, galerias, Parque Trianon, Masp, mil opções de cinemas e restaurantes, é meu paraíso particular, onde posso ir a um cinema na sessão da meia noite e ainda voltar tranqüila, a pé, para casa, pois é meu lar doce lar. E ainda, cinema, restaurante e farmácia 24 horas.
Não, não sonho com aquela Paulista de minha infância, ladeada de árvores, não sonho com os passeios de bonde ao lado de meus pais, nem sonho com a Paulista de minha adolescência, quando era possível passear em calçadas limpas e ao lado de pessoas mais felizes. Infelizmente o progresso tem um preço. Mas poderíamos pelo menos ter uma Paulista decente e da qual não nos envergonhássemos, principalmente diante de tantos visitantes estrangeiros.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
As crises de idade
Não me lembro de ter passado por nenhuma crise de idade até agora e olhem que tenho uma memória de elefante, segundo minha família e meus amigos.
Todos falam da crise da adolescência, quando os jovens ficam mais rebeldes, contestadores, irritados e irritantes. Não passei por isto. Sentia-me confiante e muito responsável. Em nenhum momento, perturbada. Atravessei aqueles anos sem me dar conta dos questionamentos da época.
Depois vem a crise do adulto jovem, que tem filhos pequenos e se sente cobrado, tendo que abdicar de muitas coisas, tendo que dedicar toda sua atenção para os filhos pequenos, 24 horas por dia, estando junto deles ou não. No meu caso, trabalhando fora, apesar de ter uma filha de dois anos e depois mais tarde com um filho de meses, tive que fazer malabarismos para poder conciliar casa, profissão e as obrigações e responsabilidades de mãe e de pai, ao mesmo tempo. Sinceramente, foi uma delícia e não senti nenhuma crise. A casa vivia cheia de crianças nos finais de semana e eu, chegada a “Cosme e Damião”, me divertia para valer.
Todos falam na crise dos 40, que chega implacável e arrasa, principalmente as mulheres. Nada! Não senti absolutamente nada. Aos 40 me sentia segura, linda, gostosa, chique, cheia de alegria, cheia de projetos novos e com uma energia descomunal. Aos 40 eu tinha uma filha de 18 anos de idade, um filho de 9 e muitos sonhos. Na verdade eu me sentia uma criança. Só não fiz chover. Abri uma escola, onde cuidava de 53 crianças, fiz uma Praça, dancei em Escola de Samba, escrevi um livro. Cantava todos os finais de semana em bares, restaurantes e hotéis em Atibaia. Namorei, beijei e me apaixonei. Cadê a crise? E ainda para completar esta fase, me conheci melhor, fiquei bem sozinha comigo mesma, cresci, amadureci um pouco mais.
Aos 50, nenhum problema. Mudei para Sampa novamente, comecei um trabalho com alunos novos, executivos de Bancos. Aprendi Kung Fu, lutei boxe, fiz novas amizades.
Lembrando Mario Quintana, “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é sexta feira... Quando se vê, passaram 60 anos.”
Aí sim, a saudade invade o coração. Sementes que foram plantadas em nossos corações ou que plantamos nos corações de nossos entes queridos, coisas boas que vivemos. Os filhos criados e distantes. A casa agora vazia. Sim, um vazio nostálgico, embora estejamos repletos de lembranças, de amor, do perfume do tempo que passou, mas que deixou marcas, pedacinhos do passado, histórias vividas, uma viagem no tempo.
Agora todas as crises ao mesmo tempo. 60 anos. Como foi que da noite para o dia eu virei “tia”? Idosa? Nem me dei conta, pois o tempo passou rapidamente. Fazer o que? Como driblar esta crise? Como me equilibrar? Cadê minha coragem para enfrentar novas situações? Cadê aquela mulher que desafiava qualquer obstáculo?
Racionalmente sei que precisamos estar bem em vários aspectos: emocional, profissional, espiritual, social, filantrópico, amoroso, afetivo, financeiro, físico e inclusive no laser. Será que é tudo? Então vou trabalhar em cada uma destas áreas para me sentir mais viva e menos saudosa. Mais ativa e menos chorosa.
Ter um segundo encontro comigo mesma, como aconteceu antes, em Atibaia. Procurar novos desafios, descobrir novos gostos, desejar novos conhecimentos, criar novos projetos e encher meu coração de amor e voltando a Mario Quintana, ... não olhar o relógio, seguir sempre, sempre em frente e ir jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.