terça-feira, 22 de março de 2011
Marido, agora? Não!
Realmente hoje eu prefiro estar sozinha, sem companheiro. Marido agora? Não! Gosto muito da minha liberdade, curto dormir sozinha, não estar presa a nenhum compromisso. Eu gosto disto.
Há um mês mais ou menos acordei com esta frase na cabeça e a escrevi na minha agenda:
“Em busca da felicidade descobri que o maior desafio para ser realmente feliz é aprender a amar todas as pessoas indistintamente, pelo menos tentar. Aprendi também que liberdade é poder”.
Continuo com a filosofia do amor universal, é meu lema na verdade. O amor universal é mais gratificante, mais completo e mais transcendental.
Sim, existe uma tristeza pelo tempo que passou tão depressa e eu não pude dar continuidade numa relação que fez aflorar minha sexualidade. E talvez naquela época eu até poderia ter encontrado outra pessoa. Mas com certeza não fechei as portas. Até, nas minhas “horas vagas”, tive alguns encontros para conversar, conhecer novas pessoas, mas não houve continuidade porque logo nos primeiros encontros eu os analisei em frases que eles falavam mal de outras mulheres e sendo assim cortei o barato deles. Um deles comentou o quanto deveria ser ridícula uma amiga minha, que nos apresentou, ajoelhada, de quatro, gorda, fazendo amor com o marido. Outro “paquera” disse que se separou da mulher só porque ela teve câncer e cheirava à quimioterapia.
Caramba! Eu estava acostumada com um homem que falava bem de suas mulheres.
Eu disse “nas horas vagas” porque assim que meu “caso” com “meu homem” terminou, eu tive uma série de contratempos pesados. Primeiramente minha mãe piorou da doença e me dava trabalho, depois a escola começou a decolar e eu trabalhava de segunda a segunda, 14 horas por dia. Depois veio a morte da Greicy e tudo o mais me pareceu muito pequeno e realmente insignificante diante do amor que eu sentia por ela. A depressão tomou conta de mim e do meu filho. Aí a mudança para São Paulo e começar a procurar emprego aos 53 anos de idade.
Então sexta feira passada, quando chorei de saudades daquela paixão, eu me dei conta que o tempo passou e não seria possível ter novamente aquele tipo de relacionamento, quente, cheio de energia e juventude. Outro tipo de relacionamento eu realmente não sinto falta. Pode acontecer, mas acho muito difícil alguém me conquistar pela delicadeza, pela fineza, pela generosidade, pelo companheirismo, pela bondade. Se aparecer um assim, vou agarrar com unhas e dentes, com certeza. Mas meu choro após o sonho foi o choro da impossibilidade de reviver algo como tive em 1991, ou seja, 20 anos atrás.
Mas sei enxergar as coisas, eu sou realista. Eu tenho mais motivos para estar bem e feliz do que triste e infeliz. Estou saudável. Tenho vontade de fazer coisas. Neste final de semana vou começar um curso de dança (já fiz vários). Vou viajar muito ainda, tanto para ver meus netos em Roma, quanto para visitar meu filho, que no ano que vem vai morar em Montreal novamente. Vou ter oportunidade de viajar dentro do Brasil uma vez por ano e me divertir. Vou continuar assistindo os mil filmes, adoro cinema. Vou continuar a conviver com minhas amigas. E a vida continua MARAVILHOSA!
domingo, 14 de novembro de 2010
Fim de semana pacífico
Ontem acordei tarde, fiz tudo com calma, comi minha maça de café da manhã, como todos os dias, por isso nunca fico gripada. Depois fui andar devagarinho pela rua (mulher da rua, como diz o Fernando para brincar comigo).
Depois do almoço fui à Livraria Cultura curtir os novos títulos de livros, ver as novidades. E mais tarde fui ao cinema com Elita.
Assisti “Minhas mães e meu pai”, uma família nada convencional. É sobre um casal de lésbicas, que fazem fecundação artificial, com o mesmo doador. Uma tem uma filha e a outra tem um filho e estão juntas há 20 anos. Os filhos resolvem procurar o tal doador. Achei o tema interessante, mas mal explorado e muito machista. Uma das mulheres é castradora, dominadora, possessiva e a outra submissa e dependente. Não gostei da abordagem, eu teria encaminhado o final de outra forma, mas vale assistir.
Voltando para casa, dei uma olhada na minha caixa de Recordações, com tudo de bom de vocês, Claudia e Fernando, meus grandes amores.
Foi POSITIVO, muito positivo.
Hoje, ao invés de cinema, depois do almoço, fui tomar um café no Café do Ponto e vi que uma senhora (80 anos depois ela me contou) estava louca para puxar papo, então dei trela. Ela contou tudo da família dela, me deu endereço e telefone. Disse que eu devia ser de Libra porque eu era muito boazinha. Ah meu Deus!
Depois ainda me fez o sinal da cruz na testa para me abençoar dizendo que ela tinha adorado conversar comigo porque mora sozinha e às vezes tem um pouco de depressão. Problema dos solitários. Por outro lado, temos a liberdade de ir e vir e fazer o que quisermos de nossas vidas.
Cleinha tinha me convidado para ir a casa dela, mas acabei ficando por aqui mesmo. Quietinha no meu canto.
Sou uma pessoa feliz. Tenho dois filhos inteligentes e saudáveis. Sou inteligente e alegre. E gosto da minha companhia, aliás, minha melhor companheira sou eu mesma e com certeza JESUS, que adoro e confio.
Estou muito bem, ainda mais quando sei que vocês estão bem e hoje vocês dois estão ótimos. Fernando com Paulinha, sua companheirona da vida e dos esportes e você com Dori, que com todas as chatices, tem dividido com você as responsabilidades dos bebês, certo? Dividido é modo de dizer, mais ou menos dividido, mas melhor do que nada, pelo menos você não fica sozinha. Ele é um grude, “sticy but not sweety” (a musica da Madona é "sticky and sweety") e vocês formam uma linda família, que era tudo que você mais desejava desde pequena, uma família com pai, mãe e filhos, gêmeos ainda, um milagre duplo, até o cachorro veio de brinde, que mais você pode querer???
Quanto a mim, que mais posso desejar? Foi um fim de semana de paz e tranqüilidade, graças a Deus, e ainda me recarregou de energia.
domingo, 19 de setembro de 2010
Eu e meus sonhos esquisitos 2
Bem, como eu disse na primeira parte dos Meus Sonhos Esquisitos, sonho muito com meus entes queridos, que já partiram para o Nosso Lar, então outro noite eu sonhei que estava na casa antiga de minha tia Gilda, que tinha uma escadaria de mármore. No sonho a escadaria era maior do que na realidade, meus “exageros” continuam nos sonhos. Minha avó estava no pé da escada e disse que não ia agüentar subir tudo sozinha. Então eu a peguei no colo e subi, como se ela fosse uma pluma, com o coração quente de tê-la tão perto de mim. E acordei com a sensação gostosa de tê-la tido em meus braços, mesmo que por alguns instantes.
Numa outra noite sonhei que fui visitar minha amiga Monica, que sofreu um acidente de carro e está numa cadeira de rodas. No sonho ela me recebeu com um vestido branco rendado, muito feminina, como ela é mesmo, e ela estava descalça. E veio na ponta dos pés, caminhando na minha direção. E eu fiquei tão feliz por vê-la tão linda e andando novamente, ela me parecia uma fada do bem. E perguntei por que ela estava andando na ponta dos pés e ela respondeu que já podia andar bem, mas que sentia um pouco de dor nos dedões dos pés.
Depois foi o sonho do bichinho de estimação. Sonhei que tinha um bichinho, do tamanho do Fidel (meu cãozinho que morreu há dois anos), uma gracinha. E eu o pegava no colo, como se fosse um bebê. Depois o colocava no chão e ele virava de barriguinha para cima, como um cachorrinho, abanando a calda para ganhar carinho no peito. Só que não era um cãozinho. Era um jacarezinho. Um lindo jacarezinho verde de estimação.
E ontem foi o sonho delicioso com minha mamma. Ela estava passeando comigo em Higienópolis. E ela estava linda, com os cabelos pretos penteados e impecavelmente vestida, como sempre, chique. Aquela amiga meiga de tantos domingos que passamos juntas, até ela adoecer. Aí eu disse:
“Mamãe, quem disse que milagres não existem! Você estava tão mal naquela clínica, que eu tinha perdido as esperanças de vê-la como você é novamente. Mas agora você está aqui, linda e perfeita como antes.”
Ela me sorriu e fizemos nossos planos dos próximos finais de semana, para procurar um apartamento para ela pertinho de mim.
E fui acordando com uma voz carinhosa chamando: “Mamãe! Mamãe!” E na confusão do sonho e da realidade eu não sabia se eu era minha mãe e a voz era a minha chamando por ela ou se era eu mesma e a voz era da minha filha.
domingo, 29 de agosto de 2010
Desapego X Amor X Ego
É preciso aprender a amar sem se apegar e ao mesmo tempo esquecer-se de si mesmo.
A vida é uma grande escola. Cada um aqui recebe as lições necessárias para seu crescimento espiritual.
Sempre soube qual era minha provação nesta vida. Dizer adeus tantas e tantas vezes à minha filha, tê-la sempre tão distante e tão próxima do coração: A boneca.
Tantas vezes deixar meu filho partir, quando gostaria de segurá-lo por perto por mais meia hora que fosse e acariciar suas costas, seus cabelos, e lhe fazer um cafuné.
Meu pai que partiu quando eu mais precisava dele, recém divorciada, jovem, com uma filha de dois anos para criar e pronta para enfrentar leões para protegê-la. Sozinha.
Os amores que não permaneceram, que partiram. A solidão. Desapego.
Agora os netos. Tão gostoso e confortante segurá-los nos braços, sentir sua pele macia, falar baixinho nos seus ouvidos: “Vovó te ama tanto!” e ter que partir. E mais uma vez, me desapegar.
Vê-los duas vezes por ano, quem sabe.
Sim, me entregar de corpo e alma e depois arrancar meu coração para deixá-lo com Francesco e Antonio.
Amar é tirar férias para trabalhar de cozinheira, babá, empregada e ainda pagar para isto, e ainda usar as míseras economias, para poder vir dar uma força a quem amamos.
Amar é ser humilde e perguntar ao companheiro da filha que horas ele quer que você chegue no dia seguinte. Perdoar quem já lhe feriu.
Amar é se dar, sem esperar nenhuma recompensa, a gratidão de um beijo carinhoso por exemplo, e se este vier, alegrar-se infinitamente porque foi inesperado.
Amar é ouvir o choro do bebê e tentar adivinhar o que aliviaria sua dor.
Amar é não medir esforços mesmo sabendo que estas duas luzinhas poderão te estranhar quando te virem na próxima vez, que sabe-se lá quando será.
Então acho que cumpri mais uma vez minha missão, de harmonia, de perdão, de humildade, de dedicação, de entrega, de amor incondicional, de presença quando meus filhos mais precisam de mim, meu apoio emocional.
Parto feliz pela paz que tentei dar a meus netinhos neste mês de agosto de 2010, e triste pelas saudades que já sinto antes de partir.
Que Deus abençoe esta família e encha o coração destes pais de amor, pelo milagre da vida de seus filhos.
sábado, 24 de julho de 2010
O anel
O anel de família
Há 64 anos um homem apaixonado, que escrevia lindas declarações de amor nas partituras que dava de presente à sua amada, casava-se com ela, a única mulher de sua vida, sendo ele também o único homem da vida dela.
Havia sido um encontro casual, num bonde da Paulista, em 1943. Ambos italianos, vindos de diferentes partes da Itália. Ela uma jovem tímida e romântica e ele um jovem inteligente, esforçado e um pouco rebelde.
Foi amor à primeira vista e logo começaram a namorar. Ele freqüentando a casa dela, onde vivia com a mãe, cinco irmãs e um irmão. Almoços aos domingos, fartos, deliciosos, após os quais ele se deleitava com os saraus. Ela, sua musa inspiradora, tocando piano, enquanto as irmãs cantavam em coro. E aqueles domingos continuaram por muitos anos. Doces domingos de uma família fora de série.
Foi ali que ele encontrou a família dele. Foi ali que ele teve seu oásis, todo seu paraíso, toda sua alegria. Foi nos braços dela que ele foi feliz e de peito aberto dizia que ela era a melhor e a mais bonita mulher do mundo.
E o casamento veio a seguir. Dois jovens apaixonados.
Ela engravidou. Ele começou a chegar mais tarde do que o de costume, lá pelas oito da noite. Ela se preocupou. Ficou enciumada pensando mil coisas, achando que ele a estava traindo. Mas a razão era o anel.
No dia do nascimento de sua filha ele lhe entregou o anel, simples como ele, mas dado com todo carinho e todo seu sacrifício. Ele estivera no ourives todas as noites enquanto o amigo o criava.
Ela ficou encantada e não o tirou mais do dedo, até que a filha, vinte anos depois, por sua vez, deu à luz a outra menina, então a boneca.
E hoje, esta boneca está no hospital esperando que cheguem seus dois meninos, dois piccolinos, Antonio e Francesco.
Neste momento, meu Deus, como eu queria estar ao lado dela e colocar em seu dedo o anel que pertenceu à avó, Inessa, à mãe, Mara e que de agora em diante estará no seu dedo, até que venha outra menina, uma neta para a boneca, talvez, vejamos, afinal a vida é uma caixinha de surpresas.
Que Deus os abençoe agora e em todos os momentos de suas vidas.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
eu e meus sonhos esquisitos e misteriosos
Eu e meus sonhos esquisitos e misteriosos
Sempre sonhei muito, de todos os tipos de sonhos, coloridos, alegres, assustadores, mas principalmente esquisitos ou misteriosos.
Sonhos premonitórios, sonhos com os mortos, sonhos engraçados.
Depois de alguns meses da morte de minha mãe, que estava com alzheimer, tive um pesadelo super estranho. Como não a encontrava fui ver se achava o cadáver dela. Em uma sala enorme havia um arquivo, cheio de gavetas grandes onde estavam guardados os mortos. Quando abri uma delas vi o corpo de minha mãe, porém sem cabeça. Fiquei desesperada procurando a cabeça dela, até que finalmente a encontrei, com os cabelos negros arrumados, bem penteados. A cabeça intacta, perfeita, jovem como ela era antes da doença. E a levei até o corpo e encaixei a cabeça, como encaixamos as cabeças das bonecas. Aí suspirei aliviada. E acordei.
A doença de minha mãe mexeu muito comigo, ela era meu referencial, uma mulher alegre, linda, elegante, meiga e de repente havia se transformado, até mudado a personalidade e o humor. E eu sofri muito vendo minha mãe se apagar aos poucos.
Lembro também daquela manhã que acordei aos prantos com a certeza de que meu filho não veria mais a amada. Soluçando, tive a sensação de que alguma coisa os separaria. Liguei imediatamente pedindo a ele que nunca brigasse com ela, a namorada, porque eu tinha medo que o sonho se concretizasse e que eles se separassem.
Seis meses exatamente desta data minha futura norinha morreu num acidente horrível, aos 20 anos de idade. Foi um aviso? Foi uma premonição?
Depois sonhei com esta minha nora, uma filha do coração, que veio para me dar aquele abraço, que sempre tínhamos uma para a outra, um abraço de muito amor, muito carinho, muita empatia. Ela me apertou forte e me disse: “Estou bem”, “Eu te amo”, exatamente como costumava fazer, e acordei. Só que acordei com o peito quente, a sensação de que ela estava ali, foi perfeita, real. E tive a certeza de que ela estava bem mesmo.
Outro sonho foi novamente com minha mãe. E há pouco, doze anos depois de sua morte. Ela chegou, me abraçou e falou baixinho no meu ouvido: “Eu estou muito feliz, ele está aqui comigo”. E eu perguntei: “Quem?”. Ela então falou: “Ele, meu grande amor”. Intrigada e pensando que ela tinha algum amor secreto, insisti em perguntar: “Mas quem é este homem? Quem é ele?”. E ela sorrindo respondeu: “Bobinha, meu grande amor, seu pai, ele está aqui comigo.”
Acordei chorando de alegria e novamente com o peito quente e muito amor no meu coração. Afinal, eles estavam juntos, que maravilha. Meu pai e minha mãe, que só tiveram um ao outro, que viveram um grande amor, juntos, do outro lado da vida.
E o sonho com Fidel, meu basset que morreu há dois anos. Tão colorido, tão vivo, tão alegre, tão real e tão presente na minha vida nos 16 anos de vida dele. Cheguei em casa e vi que haviam várias doughnuts, rosquinhas doces, cheias de chantilly, pela casa toda. Fiquei apavorada gritando: “Quem colocou estas coisas para o Fidel, o fígado dele não vai agüentar tanto doce. Precisamos comprar ração”. Desci e encontrei uma mercearia, como aquela da minha infância, ao lado de minha casa, e peguei um pacote de ração, só que custava caro e eu não tinha o dinheiro. Fiquei desesperada. Pedi para o dono da mercearia para me vender só um kilo e ele aceitou. Abriu o pacote e colocou um kilo num saquinho, o qual levei correndo para colocar na vasinha do Fidel, que deu pulos de alegria. Meu pequeno Fred Astaire, meu amiguinho querido, do qual sinto tantas saudades.
E o que dizer dos sonhos góticos? Pois é, sonhei que eu estava numa festa gótica, numa discoteca, com luz escura, jovens, musica moderna. O local estava cheio de gente. Vestia um vestido de shantung azul marinho. E de repente senti que estava sangrando, como se estivesse com alguma hemorragia porque o sangue atravessou o vestido. Estava envergonhada e queria sair de lá sem ninguém perceber o que estava acontecendo. Levantei e fui me encaminhando para a saída. No canto da sala havia uma vitrine e quatro pares de sapatos cheios de sangue. Fui embora e logo acordei. Foi bem esquisito este sonho também.
Pelo menos uma vez por mês tenho estes sonhos fantásticos e cheios de surpresas. Se eu pudesse escolher meus sonhos, pediria para ver meus entes queridos novamente, aqueles todos que amo tanto e que se foram.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Contrastes da Paulista
Seis horas da manhã.
Ando pelas calçadas da Paulista, lotada de gente indo para o trabalho, com seus ternos e terninhos, para confirmar minha teoria de que paulistanos são muito trabalhadores e começam seu dia de luta, às 7 da manhã, isto sem contar o pessoal que trabalha nos laboratórios da redondeza, os quais começam às 6:00, muito menos os operários que começam às 5:00.
Os ônibus passam cheios de gente e me lembro de pegá-los, há dez anos, no Largo da Batata, pendurada na porta, para não perder o horário do primeiro aluno, que era às 7:00 na Paulista.
Mendigos por todos os lados. Cegos ajoelhados pedem esmola. Hippies, ainda nos anos 2010? Pois é, estão em frente ao Banco Real dando banho de água gelada nos filhos, em pleno inverno, no meio da calçada, enquanto estes gritam e esperneiam de frio.
Brigas constantes do mesmo casal, que logo depois fazem as pazes. Estão drogados.
Outra bêbada atravessa a Paulista, em pleno trânsito, e os carros param, por incrível que pareça. Penso ironicamente: Se fosse uma velhinha bondosa, não escaparia.
Por que? Porque aqui é o inferno e o paraíso ao mesmo tempo.
Esta nossa Paulista, da qual tanto me orgulho e da qual tenho saudades dos passeios de mãos dadas com meus pais, nos idos anos 50, agora, às seis da manhã, é um angustiante dormitório. Enfileirados no chão, todos os dias, vejo famílias de miseráveis, dormindo em caixas de papelão e cobertos com sacos de estopa.
Papéis, montanhas de papéis, folhetos, copos descartáveis, garrafas quebradas, pratos com restos de comida chinesa feita ali, sim, ali mesmo na Paulista, sujeira, cocô de cachorros, lixo, vergonha.
Wall Street brasileira está mais para lupanar peripatético, que para orgulho do paulistano.
Camelôs tentam vender o seu peixe. Entregadores de folhetos nos enfiam goela abaixo milhares de propaganda.
Personagens de todos os tipos fazem parte do meu trajeto diário. Por me sentir tão próxima, já lhes coloquei alguns apelidos, sem maldade e com muita tristeza, pois esta é a realidade do nosso Brasil.
O cagão abaixa as calças e caga na rua, em plena Avenida Paulista. Já dei de cara com a bunda dele na minha frente, logo cedo, inúmeras vezes. Meu café da manhã. O local da privada varia, dependendo das necessidades dele.
A nega maluca, assim denominada devido aos inúmeros palavrões que ela vomita o dia todo aos passantes, vive sozinha numa esquina, pertinho do Masp, dentro de alguns caixotes de papelão.
A família mora do lado da porta do Banco Itaú, pertinho da Augusta. Pai, mãe e filhos, os quatro, dormem num colchão, ali instalado, no qual continuam durante o dia, dando uma de John Lennon e Yoko Ono, preparados para dar entrevistas se houver um jornalista interessado.
O vaidoso chega a dar aflição. Ele tem um pente, um espelho e uma pinça, com a qual fica arrancando os cílios. Sim, os cílios, e fica com os olhos vermelhos e infeccionados.
A brasileira é especial. Gorda, peituda, forte, desfila com uma camiseta do Brasil. Será esta realmente a nossa cara? Uma fita amarela e verde em volta da cabeça. Só falta cantar o Hino Nacional.
O fedido tem uma ferida na perna, na qual ele amarra uma camiseta suja. Ele anda arrastando um cobertor imundo, que exala um cheiro terrível a dois quarteirões de distância, o estômago chega a revirar, é algo insuportável.
Homens e mulheres respectivamente em seus ternos e terninhos, andam elegantemente através deste nosso cartão postal de São Paulo, com celulares grudados constantemente em suas orelhas.
Todos passam sem notar os bêbados, crianças, homens e mulheres jogados no chão, com suas feridas expostas, abertas, para nos comover e ganhar alguns trocados.
Ninguém se olha. E me pergunto: Onde é o inferno? Aqui, na Av. Paulista.
Executivos estressados, passando seus dias dentro de um escritório, muitas vezes comendo na frente do computador enquanto clicam e teclam, teclam e clicam ininterruptamente.
O infeliz que dorme ao relento, o bebê dos malditos hippies. Paz e amor, onde? Quanta incoerência!
Todos estão acorrentados em suas prisões particulares, em suas mentes, em sua falta de sonhos.
Muitos funcionários se matam de trabalhar, de olhos vermelhos de tanto ficar na frente do computador, poucas horas de sono, morrendo de medo de perderem o emprego. Muitos salários são suficientes somente para seu vestuário e alimentação.
Lazer? Cultura? Tempo para os amigos?
A resposta é unânime quando pergunto o que eles fazem no tempo livre. Chegam em casa, tomam banho, jantam e ligam a televisão, na novela, a novela da vida. Nos finais de semana, dormem.
Ninguém lê? Ninguém conversa? Ninguém pratica esportes?
No ônibus ou no metrô vejo rostos tristes, olhos sem brilho. A maioria sai de casa às cinco da manhã e volta meia noite. Os vendedores de balas as colocam nos colos dos passageiros e fazem um discurso mecânico, decorado. Outros blasfemam se não damos nada. Outros se aproximam pedindo ajuda, alegando que estão com aids e precisam comer.
Mas sou otimista, acho que seria possível reverter esta situação. Penso em soluções. Sou prática. Após a criação do CEU, poderia ser criado o HELL. Hospedaria Especial para Loucos e Larápios. Um galpão enorme com chuveiros pra lavar toda sujeira do nosso país, que tem se tornado cada vez mais triste e centenas de caminhas de vento onde eles, estes que representam a maioria do povo brasileiro, possam dormir. Recolhidos, estes infelizes e depois de banho tomado e barriga cheia, eles poderiam começar a aprender, com voluntários, principalmente com aquelas pessoas, que não precisam trabalhar, e que se sentiriam muito mais úteis fazendo algo pela nossa Sociedade, a fazer algum artesanato, cuja renda serviria para manter o galpão. Criatividade todos eles tem.
Quem sabe um dia, poderemos ter uma Paulista à altura da riqueza do nosso país, compatível pelo menos com os milhões ganhos nos negócios realizados aqui.
É esta Paulista, o paraíso, que possibilita tantos empregos a tantas e tantas pessoas, que oferece programas culturais gratuitos, concertos, exposições, cursos, no Itaú Cultural, no Sesi, na Casa das Rosas, espetáculos maravilhosos e tudo free. Lojas lindas, galerias, Parque Trianon, Masp, mil opções de cinemas e restaurantes, é meu paraíso particular, onde posso ir a um cinema na sessão da meia noite e ainda voltar tranqüila, a pé, para casa, pois é meu lar doce lar. E ainda, cinema, restaurante e farmácia 24 horas.
Não, não sonho com aquela Paulista de minha infância, ladeada de árvores, não sonho com os passeios de bonde ao lado de meus pais, nem sonho com a Paulista de minha adolescência, quando era possível passear em calçadas limpas e ao lado de pessoas mais felizes. Infelizmente o progresso tem um preço. Mas poderíamos pelo menos ter uma Paulista decente e da qual não nos envergonhássemos, principalmente diante de tantos visitantes estrangeiros.