sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eu, as fadas e a psicanalista

Eu, as fadas e minha psicanalista

Na minha última sessão a psicanalista perguntou:
“Por que você chama suas tias de fadas?”

Como explicar tantos sentimentos e tantas maravilhas da minha infância?

Meus pais eram pessoas bonitas e inteligentes. Cultos e de bom gosto. E como eram apaixonados. Ele foi o único homem da vida dela e ela, a única mulher da vida dele. Dedicatórias e bilhetes de amor faziam parte do cotidiano de minha mãe e ele sempre lhe dizia que ela era a melhor e a mais bela mulher do mundo.
E as tias? Verdadeiras fadas, cada uma com um dom especial. Quanto talento! Sabiam fazer de tudo, desde cozinhar, preparar festas, decorar o ambiente, tocar piano, cantar, costurar, bordar, tricotar e inclusive criar chapéus ousados e incríveis.
Uma bordava muito bem, ponto cruz, super delicado; outra fazia chapéus; outra fazia flores, cortando as pétalas em tecidos finos, abaulando-os com ferrinhos quentes, e com detalhes sutis. Outra tocava piano, uma concertista. Eram seis mulheres, mais minha avó, sete fadas, sete mulheres que foram referência em minha vida, em meus valores: educação, respeito, alegria de viver, amor à família, dedicação, trabalho árduo, pureza de espírito, fé em Deus, talento e tantos e tantos outros valores.
Eu ficava ali, apaixonada, encantada e totalmente feliz.
Elas me vestiam como se eu fosse uma princesa. Tive os vestidos mais graciosos que uma menina possa sonhar, de alta costura, feitos com esmero e cheios de detalhes encantadores e o melhor de tudo, por pessoas que me amavam, o que faz toda a diferença.
Tia Rosetta os costurava, cheios de nervuras, babados, casinhas de abelha, enquanto eu era menina. E para Luiz Antonio, meu irmão, eram os terninhos de veludo e camisas com jabot, parecia um príncipe.
Tia Violetta fez meus vestidos de adolescente, do baile de formatura, do noivado, do casamento e o guarda-roupa completo da lua de mel. Os mais sociais, com aplicação de flores, com todo capricho e bordados com lantejoulas, miçangas e canutilhos.
O da viagem de núpcias era um tailleur de fustão branco, com acabamento em seda vermelha e azul marinho. Na saia havia uma fenda, por onde saía um plissê, do mesmo tecido de seda, bem como a blusa sob o tailleur. O toque final? Um chapéu de fustão branco. Bolsa e sapatos brancos, com detalhes em azul marinho. Estilo Jackie Kennedy. Ainda um colar de pérolas para adornar o pescoço.
Quando eu era criança, estas tias me davam banho, me perfumavam, me vestiam, me penteavam colocando laçarotes, tiaras, enfeites lindos nos cabelos. Sapatos de verniz, e sempre uma bolsinha para combinar.
Nos anos 50, aos domingos, íamos na casa de minha avó Pina que ficava em uma vila na R. Afonso Celso n. 567, casa 24.
Adorava ir lá, pela música, pelos amiguinhos na vila, pelas tias fadinhas, que contavam histórias, faziam doces gostosos e cuidavam tão bem de mim.
A mesa era grande. Almoçávamos certa de 15 pessoas, Tia Rosetta, tio Antonio, tia Thereza, tio Antonio, tia Violetta, tia Margarida, tio Dario, tia Candida, tio Octacílio, tia Lena, mamãe, papai e eu
Minha avó Pina sorria sempre e falava muitos ditados populares napolitanos. Ela fazia uma comida muito gostosa e eram tantos os pratos que os olhos se enchiam das delícias, sem saber por onde começar. Todas as tias trabalhavam e ajudavam na casa. Pareciam realmente criaturas das florestas, dotadas de magias especiais, iguais aos personagens das histórias que Salete me contava quando eu morava em Pinheiros. Salete, outra lembrança maravilhosa. Onde estará aquela moça bonita que lia tantas histórias pra mim?
Depois do almoço farto, todos iam para a sala de visitas, onde havia um sofá grande, duas poltronas, e o imprescindível e maravilhoso piano, afinal todas as tias tiveram que aprender a tocá-lo e todas estudavam nele uma hora por dia. Na época que eram crianças, o professor passava a tarde na casa e tinha direito a lanche, chá, intervalo, café, biscoitos.
Normalmente era minha mãe a primeira a se sentar ao piano e tocar. Todos se colocavam ao seu redor cantando, acompanhando as letras das músicas.
Todos me achavam linda, graciosa. Todos me paparicavam, pois fui a primeira neta e a primeira sobrinha. Que infância inesquecível. Fora o estímulo à vaidade, vinha o carinho, a dedicação, os mimos.
E os lanches? Nem se fala. Deliciosos, com bolos, tortas, geléias, leite com açúcar queimado, gemadas e sem sei mais o que, tantos eram os quitutes e a variedade. E na época de Natal outras eram as especiarias: struffoli, zeppoli e pastiera de grano.
Tia Violetta tinha muita paciência. Ela fazia barquinhos com pão e manteiga, ou geléia, para mim e para Luiz Antonio, meu irmão e colocava-os todos enfileirados para que a gente fosse comendo um a um. Aliás, falando em geléias, ela era especialista: geléias de uva, de abóbora, de tomate, de carambola.
Tia Violetta adorava ouvir as novelas de rádio. Enquanto costurava para suas clientes, ela me dava algumas revistas antigas de moda, eu cortava as fotos das top models, brincava com elas, que conversavam entre si, fazendo assim um teatrinho, enquanto prestava atenção também nas vozes das atrizes que faziam seus personagens no rádio. Vozes marcantes como a de Ivani Ribeiro, Yara Lins, Arlete Montenegro e outras.
Tia Margarida era a ternura personificada. Adora sentar aos seus pés e observá-la enquanto bordava. Ela era justa e sempre tinha uma palavra boa para acalmar a todos. A história de amor dela é triste. Tio Dario esperou 13 anos para casar com ela, pois era tímida e não tinha coragem de aceitá-lo como namorado. Nas Festas Juninas, tio Dario sempre trazia caixas de fogos de artifício que soltávamos à noite. Ficávamos olhando para o céu, chuva de prata, chuva de ouro. Um dia tia Margarida resolveu se casar com ele. Infelizmente logo depois do casamento ela morreu e ele ficou sozinho. Foi se encontrar com ela logo depois. Morreu dormindo, embalado pelo seu amor.
No colo da tia Candida eu adorava dormir. Era quente e aconchegante. Tia Candida era engraçada, estava sempre rindo. Tinha também muita paciência para nos ensinar, ajudando nas lições de casa. E quantas e quantas vezes passamos os finais de semana na casa dela e do tio Octacílio e eles, se revezando faziam lições conosco, dando reforço escolar, para Luiz e para mim.
Tia Lena era minha professora de piano, uma concertista. Tocava magistralmente. Tinha um pouco de medo dela. Ela colocava moedas sobre minhas mãos, enquanto eu tocava e não podia derrubá-las, para que minha postura ao piano fosse perfeita. Se as derrubava, lá vinha ela, com uma régua, batendo nas minhas mãos. Mas quando ela se sentava ao piano e tocava, eu até entendia o porquê era tão rígida. Ela crescia perante meus olhos e eu a ouvia enlevada.
Tio Antonio, o único homem da casa, tinha uma voz bonita. Sentava-se na escada que levava ao segundo andar do sobrado, com seu violão. Um romântico. Eu o admirava e continuo admirando até hoje, o considero um sábio.
A casa de minha vovó Pina era movimentada. Aos domingos, antes do famoso almoço, íamos à Missa, na Igreja da Saúde. Algumas vezes cantávamos no coral. Fazia parte dele e me sentia muito orgulhosa de cantar em latim.
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E hoje, depois de passar umas horas com tia Rosetta e lhe contando sobre minha conversa com minha psicanalista, ela perguntou: “Quer ver alguns dos meus trabalhos e da Tia Margarida?” E é lógico que eu disse que sim.
Então ela abriu uma gaveta e de lá tirou as toalhas de mesa, em linho italiano, com todos aqueles bordados e o acabamento perfeito das beiradas da toalha e me lembrei, vi a cena, vi a toalha sobre a mesa e viajei para Afonso Celso, e vi o local que cada uma daquelas fadas costumava ficar. Senti o cheiro na cozinha e vovó Pina rindo e cozinhando, com seu avental. Senti o calor aconchegante daquela família, que foi minha na infância. O cenário ficou perfeito porque se tornou vivo.

Disfarcei, me despedi e sai alegremente da casa da tia. Na rua dei adeus a tia Rosetta, que me olhava da sacada e virando a esquina desabafei caindo no choro, sai pela rua soluçando, desejando ser aquela menina de cinco anos que pensava que o mundo era só feito de amor.