segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Holambra

Holambra
Depois de um stress daqueles por causa de uma amiga que nos deu o cano, Yara e eu decidimos ir com o carro dela para Holambra. Era para ter saído às 07 da manhã. Acabamos saindo às 10:40, mas foi um dia muito especial e divertido. Yara trouxe o GPS, aconselhada pela filha, que já sabe que a mãe é atrapalhada, e previu que juntando com outra, seriam duas coroas atrapalhadas, o que seria bem pior. A mocinha do GPS acertou tudo direitinho e chegamos a Holambra sãs e salvas.
O dia estava lindo, ensolarado, os pássaros cantando, o silêncio da cidadezinha de 12.000 habitantes. Queríamos fazer um tour e logo que estacionamos perguntamos a um grupo de pessoas que chegavam a um restaurante, como poderíamos fazer, os quais imediatamente nos indicaram alguém e ainda se despediram da gente com beijinhos no rosto. Todo mundo muito amigável.
Ainda descobrimos que uma casa de 300 m, custa apenas R$250.000,00. Bom lugar para passar a velhice. Os holandeses são espertos. Fizeram um condomínio onde cada idoso ou casal de idosos, tem sua casa, mas o condomínio inclui cuidados médicos necessários. Tocam um sinal na casa matriz e um médico está ali, à disposição, para atender os que precisam.
Almoçamos super bem, com direito a uma torta de limão inesquecível e saímos para o tour. Vimos uma fazenda de gérberas, lindas, de todas as cores. Vimos o moinho e o lago que foi criado de um córrego, pelos holandeses, os quais depois dividiram o lago, parte para os holandeses e parte para os brasileiros que moram ali. Durante o passeio brincamos muito com dois casais de jovens que estavam na nosso tour. Eles riram muito com nossas bobagens. Queríamos saber se haviam holandeses disponíveis para duas coroas. Fizemos todas as perguntas para a guia, nada com relação ao passeio, tudo sobre os homens de Holambra. Duas coroas taradas fazendo planos para comprar uma casa para três idosas, sim, três porque uma, que é amiga da Yara, está esperando o marido morrer para se juntar a nós.
Depois mais um café e outro doce, por que não?
Uma espiada na loja de lembranças e decidimos voltar para Sampa. Só que desta vez, sem GPS. Resultado é que nos perdemos. Fomos parar num shopping em Campinas. Lá fomos cercadas por três taxistas. Um perebento, feio que doía, outro um tipo meio índio e um mulatinho da hora, como disse minha amiga, ajeitadinho, dava para encarar. E ele bem que encarou a gente, ficava ora olhando para mim, ora para Yara, com olhar de safado. Pois é, depois de uma explicação do perebento, impossível de ser seguida, com sotaque nordestino e com tanto: “ Entra à direita, depois à esquerda, depois desce a rua, passa por baixo da ponte”, o tipo índio, graças a Deus, sabia mexer no GPS e colocou nossa salvadora, aquela voz linda, para nos trazer de volta para São Paulo. Aproveitei para perguntar se não teria uma voz gostosa de homem, que falasse suavemente nos nossos ouvidos, mas que fosse mais firme, para que não ficássemos na dúvida, porque a tal moça tinha um defeito, de vez em quando ela dizia: “Vire ligeiramente à direita” e aí Yara perdia o rebolado e não sabia se o tal “ligeiramente” era para virar ou não, mas já estava tudo conectado e decidimos sair com a moça mesmo.
No caminho ainda rimos muito porque tanto Yara quanto eu, adoramos o mulatinho dos seus 45 anos, pois ele estava no ponto, pena que não era para nosso bico.
E a volta foi ótima, a moça do GPS nos trouxe direitinho até a porta de casa e ainda disse: “Vocês chegaram ao seu destino”.

Ah!, e esqueci de dizer, para finalizar o dia com chave de ouro, as duas idosas decidiram tomar uma Malszbier e para isto escolheram um boteco fuleiro na rua Augusta. Até o garçon tirou um sarro.
Foi divertido, afinal o que conta não é o local, mas o espírito.

Exames médicos e confusões

Exames médicos e confusões

Outro dia minha amiga estava muito preocupada porque teria que fazer urgentemente uma cirurgia, pois estava cheia de pedras na vesícula. Ela havia feito uma ultrassonografia há dois anos, que haviam acusado o problema. Lá foi ela então passar por consulta novamente, com o mesmo médico da família que havia solicitado o primeiro exame, para verificar como estava a situação. O médico deu a maior bronca pelo desleixo em deixar passar tanto tempo e solicitou novo exame.
Minha amiga fez o exame, durante o qual, o técnico, não conseguindo localizar pedra nenhuma, mandava minha amiga virar de cabeça para baixo, se sacudir, virar de um lado, de outro, e nada de pedras. Sumiram todas. Milagre! Aconteceu um verdadeiro milagre!
De volta ao consultório, o médico de família não se conformava. “Mas como, as pedras estavam aqui, isto é impossível”. Pegou a radiografia, examinou minuciosamente. Parecia impossível que os exames fossem da mesma pessoa. De repente, uma luz brilhou nos seus olhos e na sua mente de especialista famoso. Correu para o arquivo, pegou a pasta da mãe da minha amiga, que também se consulta com ele. Pois é, as pastas estavam trocadas. As pedras eram da mãe...
Por falar em mãe, mãe é mãe, como diz o ditado popular, faz qualquer sacrifício. Há uns 30 anos mais ou menos, eu precisava muito de um emprego e não podia esperar outra oportunidade. O emprego era para substituir uma funcionária grávida, então eles tinham pressa e me deram um dia para fazer todos os exames de sangue, de urina e de fezes. Acho que eu estava tão estressada que não consegui fazer o de fezes. Corri para casa da minha mãe e pedi para que meu irmão, que era bom nisto, fizesse o exame por mim, mas ele não conseguiu me ajudar. Aí apelei para o coração de mãe, modo de dizer. Implorei para que ela fizesse o tal cocô, para que eu levasse no dia seguinte, e assim conseguisse o tal emprego. Ela fez o maior esforço e me trouxe umas bolinhas, que pareciam de cabritinho. Mas foi melhor do que nada. Consegui o trabalho, fiquei aliviada.
 Ainda bem que eu ainda não tinha o Chiquinho, meu Yorkshire porque se não ia sobrar para ele e de repente iam me vacinar contra raiva antes de me contratarem.

sábado, 18 de agosto de 2012

Hóspedes e Inquilinos

Hóspedes e Inquilinos

Se existe um traço que marca minha personalidade é a coragem. Como disse minha filha uma vez, meu mundo é um mundo à parte, um mundo cuja redoma inexistente permite que muitos personagens diferentes penetrem e invadam minha vida. Desde que meu filho comprou seu canto aconchegante e saiu de casa, alugo a suíte onde ele dormia, o quarto que ele usava e era seu mundo. Foi uma forma de ter alguém por perto e fazer um dinheirinho extra. Já passaram várias pessoas, e todas muito especiais e diferentes, com qualidades e defeitos, com coisas boas e ruins.
Conviver é uma arte, das mais difíceis eu sei, mas tenho aprendido muito, e quem sabe, ensinado muito também. Começou com uma austríaca, um amor de menina, meiga e muito simpática, um doce de coco. Bebia bastante, porém, e quando chegava ao prédio onde moro, nem sabia para onde ir, entrava cambaleando e com a latinha de cerveja na mão, mas era uma artista. Pintou o quarto com sereias, estrelas e tudo que coubesse na imaginação dela.
Depois veio a russa. Um mulherão no sentido literal da palavra. Tinha os cabelos negros até a cintura. E adorava a cor verde. Tudo era verde. Os sapatos, a maquiagem, o vestido, e pasmem, as unhas dos pés e das mãos. Ela era muito estranha. Adorava se sentar na sala e assistir o jornal da Band, se inteirar das notícias do mundo. Torcemos juntas para OBAMA. A extravagância dela era do mesmo porte do seu ego. Uma vez, pegou uma colgadura, de dentista, e no lugar do RaioX colocou seis fotos de desconhecidos, fotos que comprou na feirinha da Benedito Calixto, e fez um colar. Saiu na rua, toda de verde, para variar, sombra verde, alta, com aqueles longos cabelos negros e aquela cara esquisita. Quando voltou para casa, para lá de entusiasmada, com olhar de louca e rosto afogueado, me disse: “Estou lançando moda, todo mundo me olhava na rua, adoraram, vou fazer umas peças destas para vender na feirinha do MASP.” E não é que na semana seguinte lá estava ela, embaixo do vão do Masp, tentando vender suas obras de arte? Aprontou muito a tal russa, mas cada dia vinha com uma novidade. A comida que fazia era uma gororoba monstruosa marrom, que tinha um cheiro horrível, a criação de peças das mais inusitadas, as “obras de arte” que ela colocava no seu blog, a filosofia de vida e no final, gente que é gente acaba se envolvendo, na verdade ela era uma solitária e com uma dolorosa história de vida. Estamos todos aqui para aprender. Depois veio minha mineirinha que ficou um ano e meio por aqui. Muito na dela, não se envolvia na casa. Ficava sempre no quarto, seu mundo particular. Mas participou de todas as festas e partilhou dramas da minha família. Foi muito discreta, atenciosa e solidária quando precisei dela. Foi uma boa convivência e se ficasse mais um ano e meio teria sido um prazer.
Aí veio um rapaz que a princípio pensei que fosse muito tímido e educado. Mas era muito jovem e melindroso. Se eu comentasse sobre algo que não estava bem, ele respondia mal. Nunca lavou uma xícara minha sequer. Eu lavava as dele às vezes, afinal é natural ter estas delicadezas quando se mora junto. A situação foi piorando, mas não pensei que chegasse a ser tão ruim. Enquanto eu viajei ele trouxe a família para ficar no meu quarto, na minha cama, nos meus lençóis e trouxe companhia para o quarto dele algumas vezes. Tudo sem pedir minha autorização e sabendo que isto não seria permitido, afinal todos meus hóspedes assinam um contratinho que é lido antes de morarem aqui. Quando cheguei de viagem encontrei tudo revirado e quando reclamei ele alegou: “Agora você voltou e pode fazer as coisas do seu jeito!” de certa forma me afrontando.
Agora tenho um hóspede que é uma gracinha. Sabem aquele menino bom, educado, respeitador e atencioso? Fiquei emocionada quando vi como ele se preparou e preparou quarto e comida para receber a namorada. E este sim, pode trazer a namorada para ficar aqui uns dias, porque perguntou primeiro, porque é uma namorada e não uma “ficante” ou “peguete” que se encontra num barzinho, porque foi claro, honesto, sincero. A namorada chegou sorridente, trazendo de presente uma toalha de crochê feita para mim, pela mãe dela, quanta gentileza. Este rapaz não fica separando minha louça da dele. Se ele está lavando a louça, lava também a minha e a recíproca é verdadeira. Este eu posso considerar um filho polonês. Rapaz de princípios morais e religiosos. Sabem aquele genro que toda sogra pediu a Deus? E que romântico... Foi buscar a namorada no aeroporto de terno e com flores, é, isto mesmo, é daqueles que ainda mandam flores.