Hóspedes e Inquilinos
Se existe um traço que marca minha personalidade é a coragem. Como disse minha filha uma vez, meu mundo é um mundo à parte, um mundo cuja redoma inexistente permite que muitos personagens diferentes penetrem e invadam minha vida.
Desde que meu filho comprou seu canto aconchegante e saiu de casa, alugo a suíte onde ele dormia, o quarto que ele usava e era seu mundo. Foi uma forma de ter alguém por perto e fazer um dinheirinho extra.
Já passaram várias pessoas, e todas muito especiais e diferentes, com qualidades e defeitos, com coisas boas e ruins.
Conviver é uma arte, das mais difíceis eu sei, mas tenho aprendido muito, e quem sabe, ensinado muito também.
Começou com uma austríaca, um amor de menina, meiga e muito simpática, um doce de coco. Bebia bastante, porém, e quando chegava ao prédio onde moro, nem sabia para onde ir, entrava cambaleando e com a latinha de cerveja na mão, mas era uma artista. Pintou o quarto com sereias, estrelas e tudo que coubesse na imaginação dela.
Depois veio a russa. Um mulherão no sentido literal da palavra. Tinha os cabelos negros até a cintura. E adorava a cor verde. Tudo era verde. Os sapatos, a maquiagem, o vestido, e pasmem, as unhas dos pés e das mãos. Ela era muito estranha. Adorava se sentar na sala e assistir o jornal da Band, se inteirar das notícias do mundo. Torcemos juntas para OBAMA. A extravagância dela era do mesmo porte do seu ego. Uma vez, pegou uma colgadura, de dentista, e no lugar do RaioX colocou seis fotos de desconhecidos, fotos que comprou na feirinha da Benedito Calixto, e fez um colar. Saiu na rua, toda de verde, para variar, sombra verde, alta, com aqueles longos cabelos negros e aquela cara esquisita. Quando voltou para casa, para lá de entusiasmada, com olhar de louca e rosto afogueado, me disse: “Estou lançando moda, todo mundo me olhava na rua, adoraram, vou fazer umas peças destas para vender na feirinha do MASP.” E não é que na semana seguinte lá estava ela, embaixo do vão do Masp, tentando vender suas obras de arte?
Aprontou muito a tal russa, mas cada dia vinha com uma novidade. A comida que fazia era uma gororoba monstruosa marrom, que tinha um cheiro horrível, a criação de peças das mais inusitadas, as “obras de arte” que ela colocava no seu blog, a filosofia de vida e no final, gente que é gente acaba se envolvendo, na verdade ela era uma solitária e com uma dolorosa história de vida. Estamos todos aqui para aprender.
Depois veio minha mineirinha que ficou um ano e meio por aqui. Muito na dela, não se envolvia na casa. Ficava sempre no quarto, seu mundo particular. Mas participou de todas as festas e partilhou dramas da minha família. Foi muito discreta, atenciosa e solidária quando precisei dela. Foi uma boa convivência e se ficasse mais um ano e meio teria sido um prazer.
Aí veio um rapaz que a princípio pensei que fosse muito tímido e educado. Mas era muito jovem e melindroso. Se eu comentasse sobre algo que não estava bem, ele respondia mal. Nunca lavou uma xícara minha sequer. Eu lavava as dele às vezes, afinal é natural ter estas delicadezas quando se mora junto. A situação foi piorando, mas não pensei que chegasse a ser tão ruim. Enquanto eu viajei ele trouxe a família para ficar no meu quarto, na minha cama, nos meus lençóis e trouxe companhia para o quarto dele algumas vezes. Tudo sem pedir minha autorização e sabendo que isto não seria permitido, afinal todos meus hóspedes assinam um contratinho que é lido antes de morarem aqui. Quando cheguei de viagem encontrei tudo revirado e quando reclamei ele alegou: “Agora você voltou e pode fazer as coisas do seu jeito!” de certa forma me afrontando.
Agora tenho um hóspede que é uma gracinha. Sabem aquele menino bom, educado, respeitador e atencioso? Fiquei emocionada quando vi como ele se preparou e preparou quarto e comida para receber a namorada. E este sim, pode trazer a namorada para ficar aqui uns dias, porque perguntou primeiro, porque é uma namorada e não uma “ficante” ou “peguete” que se encontra num barzinho, porque foi claro, honesto, sincero. A namorada chegou sorridente, trazendo de presente uma toalha de crochê feita para mim, pela mãe dela, quanta gentileza. Este rapaz não fica separando minha louça da dele. Se ele está lavando a louça, lava também a minha e a recíproca é verdadeira. Este eu posso considerar um filho polonês. Rapaz de princípios morais e religiosos. Sabem aquele genro que toda sogra pediu a Deus? E que romântico... Foi buscar a namorada no aeroporto de terno e com flores, é, isto mesmo, é daqueles que ainda mandam flores.
sábado, 18 de agosto de 2012
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