terça-feira, 15 de novembro de 2011

Passeios e conjecturas

Passeios e conjecturas em Sampa...

Quando não estou andando pelas ruas de Roma, ao sol que arde todos os dias no verão, com o céu totalmente azul e sem nuvens, suando sim, mas alegre e descontraída, na terra de minha mãe e de minhas fadinhas, caminhando embaixo dos plátanos ao longo do Tevere, e nem tampouco andando nos undergrounds de Montreal ou ao ar livre, sob sensação térmica de menos cinqüenta graus (negativos), que frioooooo, faço meus passeios por aqui mesmo em Sampa, na Avenida Paulista, indo para cá e para lá, para dar aula, para ir aos médicos, à psicoterapeuta, na fisioterapia.
Quem disse que não é divertido? Faço caminhos diferentes e acabo me divertindo ou aprendendo muito sobre a vida. Para ir ao gastro, por exemplo, tenho que descer uma escadinha fulera, nas bocadas, atrás do Shopping Paulista, para cair na Rua Maestro Cardim. Vou a pé da Angélica até lá, tranquilamente, uns 6 km mais ou menos.
É uma escadinha muito democrática. Já passei por ela em vários horários. Na parte da manhã, vejo crianças brincando e pulando os degraus, ou brincando com suas babás ou mamães. Na hora do almoço, o ambiente é totalmente outro. Trabalhadores, operários de construções de prédios da vizinhança, estão comendo em suas marmitas e depois, abrem a camisa e deitam ali mesmo, fazendo um cochilo enquanto tomam um pouco de sol. No final da tarde a escada vira um “maconhódromo”, como se estivessem a sós, rapazes e moças, acendem e partilham seus baseadinhos, sem nem notar a presença da senhora que passa em seus passeios estapafúrdios.
Na Paulista a diversidade é maior ainda. Tem de tudo, de cover do Michael Jackson a estátuas vivas, desde demonstrações de aulas de tango, a ciganas, cheias de filhos pequenos, pedindo esmolas. E se prestarmos atenção nas conversas então, o divertimento é maior ainda, vão de brigas de namorados a assuntos de política. Bem diz minha amiga, que mora em um bairro super residencial e tranqüilo, que aqui é outro mundo.
E assim faço uma terapia “extra” por estes caminhos de ruas, ruelas, escadinhas, avenidas e pelos caminhos da minha vida.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Será que estou com depressão pós parto?

Será que estou com depressão pós-parto?
Primeira parte
Bem, há um mês resolvi comprar um cachorrinho, um yorkshire petit. Uma gracinha. Há tempo que eu vinha falando que queria outro cachorrinho, pois sentia saudades do Fidel, meu Fred Astaire, meu basset, que morreu em maio de 2009.
Tinha dúvidas se devia ou não pegar outro cachorro porque com a filha em Roma e o filho com projeto de voltar para Montreal, para terminar lá seu doutorado, eu tenho que estar sempre viajando e com um cachorro tudo fica mais difícil. Apesar de ter sido uma decisão consciente, admito que estava um pouco desgastada afinal vinha enfrentando várias coisinhas chatas nos últimos dois anos e fui impulsiva. Foi assim: num sábado estava passeando, meio chateada, ou melhor, meio triste, por uma rua pela qual nunca tinha passado e passei por um pet shop. Resolvi entrar. Vi um cachorrinho desta raça e fiquei encantada. Troquei idéia com várias pessoas dentro do Pet Shop e todos me aconselharam a pegar o bichinho, mas quando soube o preço, caro demais, desisti e continuei meu passeio. Acabei achando outro pet shop e vi outro cachorrinho da mesma raça pela metade do preço. Agora não tinha desculpas. Quando o peguei e ele fez manha, cortou meu coração e decidi levá-lo na hora.
Realmente eu estava acostumada com o Fidel, que nasceu e viveu 4 anos em Atibaia antes de vir para São Paulo. Com um quintal, um jardim, onde ele fazia as necessidades, corria, pegava passarinhos, Fidel nunca fez xixi dentro de casa. Mas o meu pequeno Chico é um mijão, não sei como cabe tanto xixi dentro dele. De hora em hora minha área está toda mijada. E aí coloco jornal, enxugo, passo pano com cândida para que ele não se acostume a fazer ali, mostro o lugar certo, tento ensinar e treinar, mas nada. Quando acabo de limpar tudo, ele vem e faz xixi de novo e depois se esconde. Então, se ele se esconde, será que é porque sabe que fez coisa errada?
Bem se este fosse todo o problema, seria fácil. Ele começou a vir com tiras compridas de farpa de madeira. Descobri que estava comendo o armário por baixo. Chamei meu “faz tudo” e ele tirou uma folha de madeira que poderia estar meio gasta e me mostrou que agora estava tudo lisinho embaixo do armário e não haveria mais problema. Que nada! Depois de um dia lá veio Chico novamente com farpas maiores ainda. Ele está literalmente comendo todo o armário por baixo, pois o vão é exatamente do tamanho dele. Então ele come o teto da casa dele...
O tal pipi dog, invenção dos humanos, agora só serve para que Chico coloque de castigo todos os brinquedos que ele tem. Não entendo, acho que Chico também precisa de uma psicanalista. Ele pega um por um, todos os brinquedos e os coloca de castigo no pipi dog.
Só sei que o preço dele, mais a caminha, mais a bolsa para levá-lo passear, mais brinquedos, mais vacinas, mais o portão que agora foi outra história para morrer de rir (não sei se choro ou se dou risada), já chegou no preço do primeiro cachorrinho que eu vi.
Pois é, o portão. Como a veterinária falou que eu o deixasse num lugar isolado, na área, para que ele aprendesse a fazer xixi no lugar certo, eu coloquei meu pôster de cantora, da época que cantava na TV Bandeirantes, que fim de carreira..., para separar a área, da cozinha. Mas fiquei com pena do bichinho ali isolado e achei que se colocasse um portão, ele poderia me ver dando as dez aulas que dou diariamente e se sentir menos separado de sua dona... eu.
Instalei o portãozinho e da sala eu o via e ele a mim. De repente, no meio da aula, quem aparece na sala dando risada da minha cara? Chico, todo satisfeito. Na dúvida, eu e meu aluno o colocamos novamente do lado da área e ficamos observando, pois achamos impossível que ele atravessasse a grade. Ele colocou a cabeça e foi se espremendo todo até que passou e veio novamente gargalhando na nossa cara. Nada feito. Vou ter que colocar tela para que ele não passe mais.
Caramba!
E o pior ainda é ter as pessoas contra mim... Quando outro dia mencionei que se eu não agüentasse, não me adaptasse, eu venderia o bichinho ou doaria para meus netos, caíram matando, dizendo que eu não tinha coração, não tinha cabeça para ter cachorro, que o pobrezinho já estava apegado a mim. Virei a bruxa da Branca de Neve. Outra vez. Já vi este filme quando internei minha mãe numa clínica.
E eu? Quem cuida de mim?
Então cheguei à conclusão que estou com depressão pós-parto. Querer o filho eu queria, mas ter que cuidar, lavar chão dez vezes por dia, dispensar todo meu tempo livre, que já é pouco, para ele, ficar dando aulas preocupada o tempo todo que o bichinho pode morrer entalado com uma farpa de madeira, gastar uma grana que poderia gastar para mim mesma e ainda ter que pensar no que vou fazer quando tiver que viajar, aí são outros quinhentos.
Alguém se habilita???
Segunda Parte
Vamos falar a verdade. Hoje em dia quantas mães cuidam de verdade de seus bebês? E a desculpa é que trabalham fora, mas eu também sempre trabalhei. No meu tempo de mãe lavei mil fraldas de cocô, fervi mamadeiras e chupetas, lavei bundinhas toda vez que os filhos faziam cocô, dei banho. Além de brincar, estimular, ensinar a ler e por que não contar, até a dirigir eu ensinei meus filhos. E com a maior paciência. Agora tudo é diferente. As mães, apesar de todas as facilidades: fraldas descartáveis, lencinhos umedecidos, aparelhos para ferver a mamadeira, etc..., ainda têm as famigeradas babás, que assopram a comida do bebê e a mãe nem vê (já vi esta cena nos shoppings inúmeras vezes). Eu mesma nunca assoprei na comida dos meus filhos.
Pois é, vou comprar os lencinhos umedecidos para Chico. Toda vez que eu vier da rua, vou gastar um lencinho para cada patinha. Eu estava usando uma toalhinha branca, que ficava preta a cada passeio. Vou facilitar minha vida de mãe moderna. Se precisar vou colocar fralda descartável, como vi hoje no cachorrinho de uma amiga. Vou contratar um adestrador para ensiná-lo a dar a patinha e quem sabe este profissional também vai lhe dar de comer soprando na comidinha dele...
Mas , sem brincadeira, estou começando a me divertir com Chico. Corro pela casa e ele vem atrás de mim. Na rua ele faz o maior sucesso. Ele é lindo. Ontem fomos ao Center 3 e todos paravam e faziam festa. Tenho reparado que as pessoas fazem mais festa para os cachorros do que para bebês. Como disse o marido de uma amiga minha, estamos humanizando os cachorros. Hoje fui com Chiquinho tomar café da manhã na Padaria Vila Bahia e todas as mesas tinham cachorrinhos, quietinhos, aguardando que seus donos tomassem seus cafés. E cachorro é um ótimo puxa papo, conversei com um jovem da idade do meu filho, com uma senhora, com outro casal. Ele é divertido, corre pela casa com minhas havaianas agarradas pelos dentes e fica no meu colo enquanto escrevo minhas crônicas.
Tenho brincado bastante com ele e estou começando a me adaptar. Vamos ver se é fogo de palha ou amor de verdade...

sábado, 10 de setembro de 2011

Escritos de Tia Rosetta

Escritos de Tia Rosetta

Mara
J´ai une petite nièce, fille de ma soeur. Elle s´appelle Mara.
Quand j´ai quelque chagrin, il suffit que je la songe pourquoi la tristesse s´efface.
Tout les enfants sont jolis et je les aime tous, mais Mara est particulièremente belle et je l´aime au dessus de tous les enfants dela terre.
Elle a quatre ans, un petit visage rond, des yeux très grands d´un bel brun brillant et une charmante petite bouche rose. Elee est comme un oiseau; elle chante, saute, pépie toujours. Elle est ma petite poupée et je m´amuse en lui faisant les folies robes.
Je ne connais rien d´aussi doux que son baiser lorsqu´elle m´ambrasse pour me dire "je t´aime tante Luetta" car elle ne sait pas encore prononcer mon nom.

Le réveil de Mara
Rien de plus joli que Mara, ma petite nièce, lorsqu´elle dort. C´est la grâce, la naiveté, un ange qui dort. On la regarde dormir et on reste ému; on croît, alors, à la bonté et on ne houge pas pour ne pas l´éveiller.
Mais, si elle s´eveille c´est un nouveau charme: En même temps, elle ouvre les yeux et sourit car elle sourit toujours quand elle s´éveille comme si elle viendrait d´un lieu heureux. Puis elle renferme les yeux comme pour revoir le joli songe; puis elle les ouvre de nouveau, se retourne dans le berceau, cache les joues roses dans l´oreiller et enfin, elle dit avec une delicieuse voix pleine encore de sommeil - "Bonjour!" Les anges du Paradis doivent le dire ainsi "bonjour".

Emocionante, não é? E assim eu me dou conta mais uma vez que estamos aqui de passagem, uma viagem, onde devemos aprender tantas coisas e realmente um dia, mais cedo ou mais tarde, voltaremos para casa, ao lado DELE, que é nosso Pai.

sábado, 13 de agosto de 2011

As pérolas de ATIBAIA

É só ligar dois fiozinhos

O piso da casa havia sido trocado, as paredes pintadas, uma nova etapa da vida. A filha morava distante e o filho havia recentemente mudado para a república da Faculdade, numa cidade a três horas de distância, alertando:
- Mãe, já caiu sua ficha? Não moro mais com você.
Tinha deixado um dos banheiros sem reforma, até que uma amiga me perguntou o motivo. Aí me veio a idéia.
Marinheira de primeira viagem, totalmente inexperiente em banheiras de hidromassagem e não vendo a hora de ter a sensação de total relaxamento, após um dia de 14 horas de trabalho ininterrupto, não resisti à tentação e cedi aos meus caprichos. Por que não? Por que não me dar ao luxo, aos 50 anos de idade, de ter uma banheira só para meu lazer?
Estava animada. Os gastos da reforma tinham sido altos, mas não custava nada fazer uma pesquisa de mercado, verificar o preço da tal banheira. Uma coisinha a mais.
Tive que criar coragem, pois para mim banheira de hidromassagem é coisa de gente rica. Liguei pedindo informações para uma amiga que vendia piscinas.
Que surpresa agradável. A amiga, além de me tranqüilizar, me ofereceu preço de custo e pagamento em três cheques. E quando perguntei quanto à instalação, ela disse que era só ligar dois fiozinhos e pronto.
Que animação. Já saí cantando, nem precisava de um par: Que tal nós dois, numa banheira de espuma. Num dolce far niente.
Chamei o pedreiro, aquele cara que inventa fechaduras estrambóticas, faz adaptações do arco da velha, como dizia meu filho, o próprio Michelangelo, bom para serviços gerais, encanador, eletricista e inclusive, nas horas vagas, artista. Sim, afinal ele não havia colocado aquele monte de andorinhas no painel do pintor italiano surrealista?
Ele me disse que precisava do material, coisa à toa, para fazer a instalação.
Bem, entre joelhos, a coisa estava ficando sexy, engates, tubos, luvas, adaptadores, conectores, ele me fala: nipples, os quais, mesmo sabendo a tradução técnica, ou seja, bocais roscados, a imagem dos bicos dos seios, não me saia da cabeça. Caramba!, o que os nipples tinham a ver com a minha banheira?
O dinheiro sumindo. A brincadeira saindo cara. Como se não bastasse, tudo pronto, testando. Motor funcionando, água borbulhando, e totalmente fria.
- Mas Nenê!
Este é o apelido do nosso Michelangelo.
- A água está fria.
Ele responde, como se nada fosse:
- É assim mesmo!
O sangue italiano subindo na cabeça, falo mais alto:
- Como é assim mesmo?
Ele pacientemente:
- Não tem problema não, a senhora coloca água do chuveiro.
Fora de controle, explodi:
- Então vou ter que tomar um banho bala para não esfriar a água? Como vou relaxar? Não está certo. Tem que ter uma solução!
Nenê arrisca:
- Então temos que sair e comprar um aquecedorzinho.

Lá fomos nós pra a casa de materiais.

22:30. Para não pensar na fria, em todos os sentidos, que eu tinha entrado, na grana, nos gastos extras, eu estava quietinha na cama, calmamente, lendo um livro. O telefone toca. Meu tio faz brincadeiras do tipo, Inauguração X Banho de Espuma ao vivo e a cores. De repente me pergunta se está tudo em ordem quanto à banheira. Respondi que só estava faltando testar no dia seguinte, com o novo aquecedor. Pra quê fui tocar neste assunto? Ele mudou de tom imediatamente, disse que Nenê não entendia nada, que ia mandar um especialista amigo dele, que se os fios não estivessem a não sei quantos milímetros de distância, minha casa ia para os ares, explosão radical, curto total, choques, literalmente, na banheira, etc...
Não dormi. Ficava imaginando o terreno da casa, vazio. Tudo queimado e meus filhos chorando. Não havia sobrado nada para eles, nem casa, nem mãe. Tantos anos trabalhando para ter este único imóvel e por causa de uma banheira, um mero capricho, nada restou.
De manhã, com a cara amassada, humor de cão, ainda tentei me animar com o Cd da Evita. Mas a história ainda não tinha acabado. Tinha mais. Após três dias de choques psicológicos e financeiros, após a minuciosa inspeção do especialista no assunto, antes de ligar a famigerada banheira, o qual me garantiu que a ligação estava perfeita, quando Nenê ligou o botão, senti cheiro de queimado. Pulei assustada da cadeira, onde estava sentada, trabalhando nas coisas da escola. Nenê parecia um louco. Desligava as chaves da luz, entrava no banheiro, saia, subia no forro da casa. Estressado, o suor escorrendo da testa. Passou por mim como bala de canhão, um foguete, com o motor debaixo do braço, em direção à cidade, engasgando nervosamente e resmungando abalado e abobalhado, que ia até a cidade verificar aquele motor. Passou de Michelangelo a Rambo.
Finalmente, depois de uma semana de transtornos e menos R$1.200,00 na conta corrente, a banheira funcionou, a água borbulhou e ficou quentinha e todos nos benzemos nela, aliviados.

Viram como era simples, era só ligar dois fiozinhos!



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Eu, as fadas e a psicanalista

Eu, as fadas e minha psicanalista

Na minha última sessão a psicanalista perguntou:
“Por que você chama suas tias de fadas?”

Como explicar tantos sentimentos e tantas maravilhas da minha infância?

Meus pais eram pessoas bonitas e inteligentes. Cultos e de bom gosto. E como eram apaixonados. Ele foi o único homem da vida dela e ela, a única mulher da vida dele. Dedicatórias e bilhetes de amor faziam parte do cotidiano de minha mãe e ele sempre lhe dizia que ela era a melhor e a mais bela mulher do mundo.
E as tias? Verdadeiras fadas, cada uma com um dom especial. Quanto talento! Sabiam fazer de tudo, desde cozinhar, preparar festas, decorar o ambiente, tocar piano, cantar, costurar, bordar, tricotar e inclusive criar chapéus ousados e incríveis.
Uma bordava muito bem, ponto cruz, super delicado; outra fazia chapéus; outra fazia flores, cortando as pétalas em tecidos finos, abaulando-os com ferrinhos quentes, e com detalhes sutis. Outra tocava piano, uma concertista. Eram seis mulheres, mais minha avó, sete fadas, sete mulheres que foram referência em minha vida, em meus valores: educação, respeito, alegria de viver, amor à família, dedicação, trabalho árduo, pureza de espírito, fé em Deus, talento e tantos e tantos outros valores.
Eu ficava ali, apaixonada, encantada e totalmente feliz.
Elas me vestiam como se eu fosse uma princesa. Tive os vestidos mais graciosos que uma menina possa sonhar, de alta costura, feitos com esmero e cheios de detalhes encantadores e o melhor de tudo, por pessoas que me amavam, o que faz toda a diferença.
Tia Rosetta os costurava, cheios de nervuras, babados, casinhas de abelha, enquanto eu era menina. E para Luiz Antonio, meu irmão, eram os terninhos de veludo e camisas com jabot, parecia um príncipe.
Tia Violetta fez meus vestidos de adolescente, do baile de formatura, do noivado, do casamento e o guarda-roupa completo da lua de mel. Os mais sociais, com aplicação de flores, com todo capricho e bordados com lantejoulas, miçangas e canutilhos.
O da viagem de núpcias era um tailleur de fustão branco, com acabamento em seda vermelha e azul marinho. Na saia havia uma fenda, por onde saía um plissê, do mesmo tecido de seda, bem como a blusa sob o tailleur. O toque final? Um chapéu de fustão branco. Bolsa e sapatos brancos, com detalhes em azul marinho. Estilo Jackie Kennedy. Ainda um colar de pérolas para adornar o pescoço.
Quando eu era criança, estas tias me davam banho, me perfumavam, me vestiam, me penteavam colocando laçarotes, tiaras, enfeites lindos nos cabelos. Sapatos de verniz, e sempre uma bolsinha para combinar.
Nos anos 50, aos domingos, íamos na casa de minha avó Pina que ficava em uma vila na R. Afonso Celso n. 567, casa 24.
Adorava ir lá, pela música, pelos amiguinhos na vila, pelas tias fadinhas, que contavam histórias, faziam doces gostosos e cuidavam tão bem de mim.
A mesa era grande. Almoçávamos certa de 15 pessoas, Tia Rosetta, tio Antonio, tia Thereza, tio Antonio, tia Violetta, tia Margarida, tio Dario, tia Candida, tio Octacílio, tia Lena, mamãe, papai e eu
Minha avó Pina sorria sempre e falava muitos ditados populares napolitanos. Ela fazia uma comida muito gostosa e eram tantos os pratos que os olhos se enchiam das delícias, sem saber por onde começar. Todas as tias trabalhavam e ajudavam na casa. Pareciam realmente criaturas das florestas, dotadas de magias especiais, iguais aos personagens das histórias que Salete me contava quando eu morava em Pinheiros. Salete, outra lembrança maravilhosa. Onde estará aquela moça bonita que lia tantas histórias pra mim?
Depois do almoço farto, todos iam para a sala de visitas, onde havia um sofá grande, duas poltronas, e o imprescindível e maravilhoso piano, afinal todas as tias tiveram que aprender a tocá-lo e todas estudavam nele uma hora por dia. Na época que eram crianças, o professor passava a tarde na casa e tinha direito a lanche, chá, intervalo, café, biscoitos.
Normalmente era minha mãe a primeira a se sentar ao piano e tocar. Todos se colocavam ao seu redor cantando, acompanhando as letras das músicas.
Todos me achavam linda, graciosa. Todos me paparicavam, pois fui a primeira neta e a primeira sobrinha. Que infância inesquecível. Fora o estímulo à vaidade, vinha o carinho, a dedicação, os mimos.
E os lanches? Nem se fala. Deliciosos, com bolos, tortas, geléias, leite com açúcar queimado, gemadas e sem sei mais o que, tantos eram os quitutes e a variedade. E na época de Natal outras eram as especiarias: struffoli, zeppoli e pastiera de grano.
Tia Violetta tinha muita paciência. Ela fazia barquinhos com pão e manteiga, ou geléia, para mim e para Luiz Antonio, meu irmão e colocava-os todos enfileirados para que a gente fosse comendo um a um. Aliás, falando em geléias, ela era especialista: geléias de uva, de abóbora, de tomate, de carambola.
Tia Violetta adorava ouvir as novelas de rádio. Enquanto costurava para suas clientes, ela me dava algumas revistas antigas de moda, eu cortava as fotos das top models, brincava com elas, que conversavam entre si, fazendo assim um teatrinho, enquanto prestava atenção também nas vozes das atrizes que faziam seus personagens no rádio. Vozes marcantes como a de Ivani Ribeiro, Yara Lins, Arlete Montenegro e outras.
Tia Margarida era a ternura personificada. Adora sentar aos seus pés e observá-la enquanto bordava. Ela era justa e sempre tinha uma palavra boa para acalmar a todos. A história de amor dela é triste. Tio Dario esperou 13 anos para casar com ela, pois era tímida e não tinha coragem de aceitá-lo como namorado. Nas Festas Juninas, tio Dario sempre trazia caixas de fogos de artifício que soltávamos à noite. Ficávamos olhando para o céu, chuva de prata, chuva de ouro. Um dia tia Margarida resolveu se casar com ele. Infelizmente logo depois do casamento ela morreu e ele ficou sozinho. Foi se encontrar com ela logo depois. Morreu dormindo, embalado pelo seu amor.
No colo da tia Candida eu adorava dormir. Era quente e aconchegante. Tia Candida era engraçada, estava sempre rindo. Tinha também muita paciência para nos ensinar, ajudando nas lições de casa. E quantas e quantas vezes passamos os finais de semana na casa dela e do tio Octacílio e eles, se revezando faziam lições conosco, dando reforço escolar, para Luiz e para mim.
Tia Lena era minha professora de piano, uma concertista. Tocava magistralmente. Tinha um pouco de medo dela. Ela colocava moedas sobre minhas mãos, enquanto eu tocava e não podia derrubá-las, para que minha postura ao piano fosse perfeita. Se as derrubava, lá vinha ela, com uma régua, batendo nas minhas mãos. Mas quando ela se sentava ao piano e tocava, eu até entendia o porquê era tão rígida. Ela crescia perante meus olhos e eu a ouvia enlevada.
Tio Antonio, o único homem da casa, tinha uma voz bonita. Sentava-se na escada que levava ao segundo andar do sobrado, com seu violão. Um romântico. Eu o admirava e continuo admirando até hoje, o considero um sábio.
A casa de minha vovó Pina era movimentada. Aos domingos, antes do famoso almoço, íamos à Missa, na Igreja da Saúde. Algumas vezes cantávamos no coral. Fazia parte dele e me sentia muito orgulhosa de cantar em latim.
.........
E hoje, depois de passar umas horas com tia Rosetta e lhe contando sobre minha conversa com minha psicanalista, ela perguntou: “Quer ver alguns dos meus trabalhos e da Tia Margarida?” E é lógico que eu disse que sim.
Então ela abriu uma gaveta e de lá tirou as toalhas de mesa, em linho italiano, com todos aqueles bordados e o acabamento perfeito das beiradas da toalha e me lembrei, vi a cena, vi a toalha sobre a mesa e viajei para Afonso Celso, e vi o local que cada uma daquelas fadas costumava ficar. Senti o cheiro na cozinha e vovó Pina rindo e cozinhando, com seu avental. Senti o calor aconchegante daquela família, que foi minha na infância. O cenário ficou perfeito porque se tornou vivo.

Disfarcei, me despedi e sai alegremente da casa da tia. Na rua dei adeus a tia Rosetta, que me olhava da sacada e virando a esquina desabafei caindo no choro, sai pela rua soluçando, desejando ser aquela menina de cinco anos que pensava que o mundo era só feito de amor.

domingo, 1 de maio de 2011

Velhinha é a vó!

Velhinha é a vó!
Despertador toca às 6 da manhã. Acordo, me espreguiço e abro os olhos. Agradeço a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama sobre mim e minha família todos os dias. Olho as fotos do meu pai, minha mãe e Greicy e os beijo mentalmente. Vou levantando devagar. Faço um pequeno alongamento. Vou à cozinha, tomo meus remedinhos. Vou para o banheiro, lavo o rosto, coloco colírio e depois passo creme no meu rosto. Tomo meu chá com torradas e uma fruta. E adoro fazer três coisas ao mesmo tempo, enquanto a torrada torra e a água ferve, faço minha make up... que chique...
Minha aluna chega, são 6:45. E depois outra e outra. Saio de casa por volta do meio dia, almoço e vou dar aula no Citi. De lá vou para a Academia e faço uma hora e meia de exercícios. Volto para casa e tenho alunas até 9 da noite. Esta é a rotina às segundas, quartas e sextas. E nos outros dias, além dos alunos do dia, fisioterapia, acupuntura, terapia e aulas de dança e de violão.
Bem, estou contente porque minha psicanalista me fez ver que ainda não estou na idade de me considerar idosa, apesar de 60 anos ser considerada idosa no Brasil. Problema cultural.
Acho que como vivi muitas coisas, muitas experiências diferentes, sete fases da vida tão distintas, parece que vivi sete vidas, de verdade. Tanto que me achava uma gata, rsrsrs, mas agora já estava me considerando uma Dona Canô.
A realidade é que ainda tenho uns 20 anos, no mínimo, de trabalho pela frente e para me aposentar de verdade. Ontem vi uma senhora toda durinha, de cabelos pintados, no ônibus e ela conversando comigo me disse que é professora de yoga, que dá aulas, pega ônibus todos os dias, está na ativa, e ela tem 83 anos de idade. Se ela pode, por que eu não posso? Não bebo, não fumo, me exercito e amo a vida. Os limites estão na nossa cabeça. Sei que meu coração está meio preocupante, um pouco atrapalhado, como eu, mas vai melhorar. Tenho certeza.
Então hoje, depois do incentivo da Bia, que quer me ver sempre linda, e da Tete, que falou que “senhora”” só aos 90 anos, fui pintar os cabelos novamente. Fica para mais tarde esta história de assumir os grisalhos, paciência. Eu até que estava gostando, me achando uma senhora distinta, mas só eu, ninguém mais estava aprovando.
Bem estou adorando minha ginástica, minha psicanálise, minha acupuntura, minha massagem e minhas aulas de dança.
Quero muito aprender violão também. Só não tive tempo de sentar e treinar nada. E não é desculpa esfarrapada, ontem comecei a trabalhar às 6:45 (acreditem se quiserem) e dei aulas sem parar até 21:30. Puxa vida! Quem tem saco para fazer "faculdade de musica" nesta altura do campeonato? Bem vou tentar me organizar para sentar e estudar as tais cifras.

Quero é curtir a vida, me divertir, ir ao cinema e rir com as amigas. Aliás, minhas amigas me preenchem muito e conviver com elas, ver meus netos e minha filha, pelo skype, todos os dias e ter dois domingos por mês para curtir meu filho, tem sido MARAVILHOSO!

E vou continuar me esforçando no regime, pelo menos agora me animei depois de perder 2 kilos e meio. Vamos lá! Coragem velhota!

“Velhinha é a vó.”

sábado, 30 de abril de 2011

terça-feira, 22 de março de 2011

Marido, agora? Não!

Como pode ser que na semana que vem seja a última sessão de terapia deste ano, gostaria de deixar mais claro, para mim mesma, o que quero da vida.
Realmente hoje eu prefiro estar sozinha, sem companheiro. Marido agora? Não! Gosto muito da minha liberdade, curto dormir sozinha, não estar presa a nenhum compromisso. Eu gosto disto.
Há um mês mais ou menos acordei com esta frase na cabeça e a escrevi na minha agenda:
“Em busca da felicidade descobri que o maior desafio para ser realmente feliz é aprender a amar todas as pessoas indistintamente, pelo menos tentar. Aprendi também que liberdade é poder”.
Continuo com a filosofia do amor universal, é meu lema na verdade. O amor universal é mais gratificante, mais completo e mais transcendental.
Sim, existe uma tristeza pelo tempo que passou tão depressa e eu não pude dar continuidade numa relação que fez aflorar minha sexualidade. E talvez naquela época eu até poderia ter encontrado outra pessoa. Mas com certeza não fechei as portas. Até, nas minhas “horas vagas”, tive alguns encontros para conversar, conhecer novas pessoas, mas não houve continuidade porque logo nos primeiros encontros eu os analisei em frases que eles falavam mal de outras mulheres e sendo assim cortei o barato deles. Um deles comentou o quanto deveria ser ridícula uma amiga minha, que nos apresentou, ajoelhada, de quatro, gorda, fazendo amor com o marido. Outro “paquera” disse que se separou da mulher só porque ela teve câncer e cheirava à quimioterapia.
Caramba! Eu estava acostumada com um homem que falava bem de suas mulheres.
Eu disse “nas horas vagas” porque assim que meu “caso” com “meu homem” terminou, eu tive uma série de contratempos pesados. Primeiramente minha mãe piorou da doença e me dava trabalho, depois a escola começou a decolar e eu trabalhava de segunda a segunda, 14 horas por dia. Depois veio a morte da Greicy e tudo o mais me pareceu muito pequeno e realmente insignificante diante do amor que eu sentia por ela. A depressão tomou conta de mim e do meu filho. Aí a mudança para São Paulo e começar a procurar emprego aos 53 anos de idade.
Então sexta feira passada, quando chorei de saudades daquela paixão, eu me dei conta que o tempo passou e não seria possível ter novamente aquele tipo de relacionamento, quente, cheio de energia e juventude. Outro tipo de relacionamento eu realmente não sinto falta. Pode acontecer, mas acho muito difícil alguém me conquistar pela delicadeza, pela fineza, pela generosidade, pelo companheirismo, pela bondade. Se aparecer um assim, vou agarrar com unhas e dentes, com certeza. Mas meu choro após o sonho foi o choro da impossibilidade de reviver algo como tive em 1991, ou seja, 20 anos atrás.
Mas sei enxergar as coisas, eu sou realista. Eu tenho mais motivos para estar bem e feliz do que triste e infeliz. Estou saudável. Tenho vontade de fazer coisas. Neste final de semana vou começar um curso de dança (já fiz vários). Vou viajar muito ainda, tanto para ver meus netos em Roma, quanto para visitar meu filho, que no ano que vem vai morar em Montreal novamente. Vou ter oportunidade de viajar dentro do Brasil uma vez por ano e me divertir. Vou continuar assistindo os mil filmes, adoro cinema. Vou continuar a conviver com minhas amigas. E a vida continua MARAVILHOSA!