sexta-feira, 14 de maio de 2010

Contrastes da Paulista











Contrastes da Paulista

Seis horas da manhã.
Ando pelas calçadas da Paulista, lotada de gente indo para o trabalho, com seus ternos e terninhos, para confirmar minha teoria de que paulistanos são muito trabalhadores e começam seu dia de luta, às 7 da manhã, isto sem contar o pessoal que trabalha nos laboratórios da redondeza, os quais começam às 6:00, muito menos os operários que começam às 5:00.
Os ônibus passam cheios de gente e me lembro de pegá-los, há dez anos, no Largo da Batata, pendurada na porta, para não perder o horário do primeiro aluno, que era às 7:00 na Paulista.

Mendigos por todos os lados. Cegos ajoelhados pedem esmola. Hippies, ainda nos anos 2010? Pois é, estão em frente ao Banco Real dando banho de água gelada nos filhos, em pleno inverno, no meio da calçada, enquanto estes gritam e esperneiam de frio.
Brigas constantes do mesmo casal, que logo depois fazem as pazes. Estão drogados.
Outra bêbada atravessa a Paulista, em pleno trânsito, e os carros param, por incrível que pareça. Penso ironicamente: Se fosse uma velhinha bondosa, não escaparia.

Por que? Porque aqui é o inferno e o paraíso ao mesmo tempo.

Esta nossa Paulista, da qual tanto me orgulho e da qual tenho saudades dos passeios de mãos dadas com meus pais, nos idos anos 50, agora, às seis da manhã, é um angustiante dormitório. Enfileirados no chão, todos os dias, vejo famílias de miseráveis, dormindo em caixas de papelão e cobertos com sacos de estopa.
Papéis, montanhas de papéis, folhetos, copos descartáveis, garrafas quebradas, pratos com restos de comida chinesa feita ali, sim, ali mesmo na Paulista, sujeira, cocô de cachorros, lixo, vergonha.

Wall Street brasileira está mais para lupanar peripatético, que para orgulho do paulistano.
Camelôs tentam vender o seu peixe. Entregadores de folhetos nos enfiam goela abaixo milhares de propaganda.
Personagens de todos os tipos fazem parte do meu trajeto diário. Por me sentir tão próxima, já lhes coloquei alguns apelidos, sem maldade e com muita tristeza, pois esta é a realidade do nosso Brasil.

O cagão abaixa as calças e caga na rua, em plena Avenida Paulista. Já dei de cara com a bunda dele na minha frente, logo cedo, inúmeras vezes. Meu café da manhã. O local da privada varia, dependendo das necessidades dele.

A nega maluca, assim denominada devido aos inúmeros palavrões que ela vomita o dia todo aos passantes, vive sozinha numa esquina, pertinho do Masp, dentro de alguns caixotes de papelão.
A família mora do lado da porta do Banco Itaú, pertinho da Augusta. Pai, mãe e filhos, os quatro, dormem num colchão, ali instalado, no qual continuam durante o dia, dando uma de John Lennon e Yoko Ono, preparados para dar entrevistas se houver um jornalista interessado.

O vaidoso chega a dar aflição. Ele tem um pente, um espelho e uma pinça, com a qual fica arrancando os cílios. Sim, os cílios, e fica com os olhos vermelhos e infeccionados.

A brasileira é especial. Gorda, peituda, forte, desfila com uma camiseta do Brasil. Será esta realmente a nossa cara? Uma fita amarela e verde em volta da cabeça. Só falta cantar o Hino Nacional.

O fedido tem uma ferida na perna, na qual ele amarra uma camiseta suja. Ele anda arrastando um cobertor imundo, que exala um cheiro terrível a dois quarteirões de distância, o estômago chega a revirar, é algo insuportável.

Homens e mulheres respectivamente em seus ternos e terninhos, andam elegantemente através deste nosso cartão postal de São Paulo, com celulares grudados constantemente em suas orelhas.
Todos passam sem notar os bêbados, crianças, homens e mulheres jogados no chão, com suas feridas expostas, abertas, para nos comover e ganhar alguns trocados.
Ninguém se olha. E me pergunto: Onde é o inferno? Aqui, na Av. Paulista.

Executivos estressados, passando seus dias dentro de um escritório, muitas vezes comendo na frente do computador enquanto clicam e teclam, teclam e clicam ininterruptamente.
O infeliz que dorme ao relento, o bebê dos malditos hippies. Paz e amor, onde? Quanta incoerência!
Todos estão acorrentados em suas prisões particulares, em suas mentes, em sua falta de sonhos.
Muitos funcionários se matam de trabalhar, de olhos vermelhos de tanto ficar na frente do computador, poucas horas de sono, morrendo de medo de perderem o emprego. Muitos salários são suficientes somente para seu vestuário e alimentação.
Lazer? Cultura? Tempo para os amigos?
A resposta é unânime quando pergunto o que eles fazem no tempo livre. Chegam em casa, tomam banho, jantam e ligam a televisão, na novela, a novela da vida. Nos finais de semana, dormem.
Ninguém lê? Ninguém conversa? Ninguém pratica esportes?
No ônibus ou no metrô vejo rostos tristes, olhos sem brilho. A maioria sai de casa às cinco da manhã e volta meia noite. Os vendedores de balas as colocam nos colos dos passageiros e fazem um discurso mecânico, decorado. Outros blasfemam se não damos nada. Outros se aproximam pedindo ajuda, alegando que estão com aids e precisam comer.

Mas sou otimista, acho que seria possível reverter esta situação. Penso em soluções. Sou prática. Após a criação do CEU, poderia ser criado o HELL. Hospedaria Especial para Loucos e Larápios. Um galpão enorme com chuveiros pra lavar toda sujeira do nosso país, que tem se tornado cada vez mais triste e centenas de caminhas de vento onde eles, estes que representam a maioria do povo brasileiro, possam dormir. Recolhidos, estes infelizes e depois de banho tomado e barriga cheia, eles poderiam começar a aprender, com voluntários, principalmente com aquelas pessoas, que não precisam trabalhar, e que se sentiriam muito mais úteis fazendo algo pela nossa Sociedade, a fazer algum artesanato, cuja renda serviria para manter o galpão. Criatividade todos eles tem.

Quem sabe um dia, poderemos ter uma Paulista à altura da riqueza do nosso país, compatível pelo menos com os milhões ganhos nos negócios realizados aqui.





É esta Paulista, o paraíso, que possibilita tantos empregos a tantas e tantas pessoas, que oferece programas culturais gratuitos, concertos, exposições, cursos, no Itaú Cultural, no Sesi, na Casa das Rosas, espetáculos maravilhosos e tudo free. Lojas lindas, galerias, Parque Trianon, Masp, mil opções de cinemas e restaurantes, é meu paraíso particular, onde posso ir a um cinema na sessão da meia noite e ainda voltar tranqüila, a pé, para casa, pois é meu lar doce lar. E ainda, cinema, restaurante e farmácia 24 horas.

Não, não sonho com aquela Paulista de minha infância, ladeada de árvores, não sonho com os passeios de bonde ao lado de meus pais, nem sonho com a Paulista de minha adolescência, quando era possível passear em calçadas limpas e ao lado de pessoas mais felizes. Infelizmente o progresso tem um preço. Mas poderíamos pelo menos ter uma Paulista decente e da qual não nos envergonhássemos, principalmente diante de tantos visitantes estrangeiros.










3 comentários:

  1. Adorei!!!!!!!!!!!! O pior que é pura verdade, mas vc é uma pessoa especial, e quando vem de vc, fica mais leve a carga da crise. Mil bjos.Lu.

    ResponderExcluir
  2. A Paulista é tudo isso que vc descreveu e o pior é que parece que todo santo dia tem mais um novo morador, mais um cagão, mais um casal hippie, mais um vaidoso...

    ResponderExcluir
  3. Descreveu com clareza o que é a Av Paulista. Texto ótimo!
    O verdadeiro inferno .

    ResponderExcluir