As crises de idade...
Não me lembro de ter passado por nenhuma crise de idade até agora e olhem que tenho uma memória de elefante, segundo minha família e meus amigos.
Todos falam da crise da adolescência, quando os jovens ficam mais rebeldes, contestadores, irritados e irritantes. Não passei por isto. Sentia-me confiante e muito responsável. Em nenhum momento, perturbada. Atravessei aqueles anos sem me dar conta dos questionamentos da época.
Depois vem a crise do adulto jovem, que tem filhos pequenos e se sente cobrado, tendo que abdicar de muitas coisas, tendo que dedicar toda sua atenção para os filhos pequenos, 24 horas por dia, estando junto deles ou não. No meu caso, trabalhando fora, apesar de ter uma filha de dois anos e depois mais tarde com um filho de meses, tive que fazer malabarismos para poder conciliar casa, profissão e as obrigações e responsabilidades de mãe e de pai, ao mesmo tempo. Sinceramente, foi uma delícia e não senti nenhuma crise. A casa vivia cheia de crianças nos finais de semana e eu, chegada a “Cosme e Damião”, me divertia para valer.
Todos falam na crise dos 40, que chega implacável e arrasa, principalmente as mulheres. Nada! Não senti absolutamente nada. Aos 40 me sentia segura, linda, gostosa, chique, cheia de alegria, cheia de projetos novos e com uma energia descomunal. Aos 40 eu tinha uma filha de 18 anos de idade, um filho de 9 e muitos sonhos. Na verdade eu me sentia uma criança. Só não fiz chover. Abri uma escola, onde cuidava de 53 crianças, fiz uma Praça, dancei em Escola de Samba, escrevi um livro. Cantava todos os finais de semana em bares, restaurantes e hotéis em Atibaia. Namorei, beijei e me apaixonei. Cadê a crise? E ainda para completar esta fase, me conheci melhor, fiquei bem sozinha comigo mesma, cresci, amadureci um pouco mais.
Aos 50, nenhum problema. Mudei para Sampa novamente, comecei um trabalho com alunos novos, executivos de Bancos. Aprendi Kung Fu, lutei boxe, fiz novas amizades.
Lembrando Mario Quintana, “A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo... Quando se vê, já é sexta feira... Quando se vê, passaram 60 anos.”
Aí sim, a saudade invade o coração. Sementes que foram plantadas em nossos corações ou que plantamos nos corações de nossos entes queridos, coisas boas que vivemos. Os filhos criados e distantes. A casa agora vazia. Sim, um vazio nostálgico, embora estejamos repletos de lembranças, de amor, do perfume do tempo que passou, mas que deixou marcas, pedacinhos do passado, histórias vividas, uma viagem no tempo.
Agora todas as crises ao mesmo tempo. 60 anos. Como foi que da noite para o dia eu virei “tia”? Idosa? Nem me dei conta, pois o tempo passou rapidamente. Fazer o que? Como driblar esta crise? Como me equilibrar? Cadê minha coragem para enfrentar novas situações? Cadê aquela mulher que desafiava qualquer obstáculo?
Racionalmente sei que precisamos estar bem em vários aspectos: emocional, profissional, espiritual, social, filantrópico, amoroso, afetivo, financeiro, físico e inclusive no laser. Será que é tudo? Então vou trabalhar em cada uma destas áreas para me sentir mais viva e menos saudosa. Mais ativa e menos chorosa.
Ter um segundo encontro comigo mesma, como aconteceu antes, em Atibaia. Procurar novos desafios, descobrir novos gostos, desejar novos conhecimentos, criar novos projetos e encher meu coração de amor e voltando a Mario Quintana, ... não olhar o relógio, seguir sempre, sempre em frente e ir jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
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Oi Marinha, que maravilha de texto, de vida e de lição.... emocionante.
ResponderExcluirAdoro ler textos escritos por vc..
beijos no coração
Gi